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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Conhecendo e traduzindo Ansel Elkins

Unknown
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Ansel Elkins é uma poeta contemporânea de 34 anos, natural do estado do Alabama, no sudeste dos Estados Unidos. Ela cresceu nas encostas das montanhas Blue Ridge, em um ambiente rural, se mudando mais tarde para Greensboro, uma cidade da Carolina do Norte, onde vive atualmente como professora de escrita criativa da universidade local. Até o momento é uma poeta pouco estudada e nunca traduzida para o português, tendo tido seu primeiro livro publicado no início de 2015.
A poeta possui ascendência porto-riquenha, muito embora não fale espanhol e não tenha vínculos fortes com a comunidade latina nos Estados Unidos. Tendo vivido sua infância e adolescência em uma cidade do interior, conservadora e intolerante, Ansel foi vítima de preconceito por conta de suas raízes, o que fez com que ela nunca se encaixasse completamente na cultura americana.
Ao mesmo tempo, já que não manteve contato com sua família de Porto Rico, ela também não se identificava com a cultura desse país, nem com os imigrantes vindos de lá. Ela se considera uma mulher sem pátria, cuja mistura de origens resultou em seu desencaixe social e conflito identitário, temas muito frequentes em sua poesia. Além dessas temáticas, Ansel fala sobre feminismo, preconceito racial e relações familiares problemáticas, normalmente usando como pano de fundo uma atmosfera fantástica e/ou bucólica.
Sua poética foi premiada em 2014 com o Yale Series of Younger Poets — existente desde 1919, é o prêmio literário anual mais antigo dos Estados Unidos e se destina a poetas americanos com menos de 40 anos que nunca tiveram um livro publicado. “Blue Yodel” foi selecionado pelo jurado, e poeta renomado, Carl Phillps, tornando Ansel Elkins a primeira pessoa com origens latinas a receber o prêmio.
A poeta mostra uma preocupação em usar sua poesia como forma de atingir pessoas comuns e fazê-las repensarem a respeito da maneira com que lidam com a diferença, mas, além disso, ela também tem como pretensão atingir grupos que pregam a intolerância e cometem atentados contra as minorias. As experiências pessoais da autora deram a ela um arcabouço para tratar desses tópicos sensíveis, convertendo seu sofrimento em uma possibilidade de dar voz a outros que se encontram em situações parecidas, à margem da sociedade, e transmitir empatia.
A poesia de Ansel está muito menos ligada à forma do que ao sentido, sua poética é quase prosa, buscando uma comunicação direta com o leitor. Mesmo quando soa intimista, a autora sempre busca atingir, de uma forma ou de outra, o universal. Ela parte de situações pontuais, abordadas de maneira metafórica, para transmitir mensagens de (auto) aceitação, colocando em xeque preconceitos, estereótipos e verdades absolutas.

O poema “Adventures of the Double-Headed Girl”, traduzido a seguir, é inspirado nas história de gêmeas siamesas famosas nos séculos XIX e XX, Millie e Christine McCoy, e Daisy e Violet Hilton. A poesia chama atenção para o fato de que a peculiaridade que envolve as meninas é vista como um modo de espetacularizar suas vidas e satisfazer os homens ao seu redor. As gêmeas que inspiraram o poema foram vendidas para o circo e passaram seus dias fazendo performances artísticas e se submetendo às excentricidades de homens ricos. Quando são catalogadas por cientistas, as gêmeas do poema perdem todo seu lado humano, se reduzindo a aberrações.
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Mais do que aludir ao fantástico, Ansel coloca em pauta, a partir de uma situação extrema, a frequente objetificação das mulheres. Desse modo, “Adventures of the Double-Headed Girl” pode ser visto como um poema feminista emblemático da autora, que agrupa ao mesmo tempo a sua tendência de dar voz ao “outro” e a de partir de um caso específico para abordar um tema geral.

Aventuras da Menina de Duas Cabeças
 
                De fato, somos um ser estranho
                                                             unidas, eixo de uma espinha compartilhada
por trás das lentes, cientistas nos examinam
                                                             lusus naturae – nosso nome é catalogado a lápis  
                encantados, os cavalheiros imaginam  
           possuiria duas mulheres de uma vez?
                                                             chegando na bifurcação da estrada, um homem
                                                             alisará seus bigodes, ponderando as possibilidades,  
                                                             e decidirá astutamente sim, é melhor
abater duas lebres com uma cajadada só
                                                             o cuspidor de fogo nos dá uma piscadela
                    está flertando comigo ou com você?
                                                             eu jogo um beijo no ar  
                                                             com minha luva de borracha
 homens letrados não dicionarizaram a palavra
                                    para esse prazer entrelaçado
                                                             duas mulheres amarradas uma na outra
                                                             estimulam o apetite dos espectadores
como meninos em frente a uma loja de doces
         o grupo de homens de chapéus coco
                                                            se empurra para nos ver de perto
                                                            duas mulheres amarradas uma na outra
                               o indizível, nós somos
                                                            uma semente alada

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A mulher calada

Unknown


Janet Malcom



Na edição lançada pela Companhia das Letras, em 2012, de A mulher calada, logo abaixo do título encontram-se as seguintes palavras: Sylvia Plath, Ted Hughes e os limites da biografia. O livro não é uma biografia. Não conta toda a história da Sylvia Plath e nem de longe é linear. Envolve muita informação sobre o que ocorreu após a morte da escritora. Tudo em A mulher calada gira em torno da figura mítica em que Plath se tornou. A dor, o silêncio, a poesia, o suicídio. Há muitas informações interessantes, pequenas histórias e uso de cartas.
A autora, Janet Malcolm, é escritora e jornalista do New Yorker, autora de diversos livros sobre reportagem. Em A mulher calada, Janet entrevistou muitas pessoas que conheceram Sylvia Plath quando ela estava viva. Uma delas diz que Sylvia nunca foi uma moça suave e emotiva.
O livro aborda a relação entre Plath e seu marido, Ted Hughes. Após descobrir as traições do marido, eles se separaram. Sylvia Plath sofreu muito.  Foi morar, em um apartamento, com os dois filhos. Malcolm entrevistou o vizinho que a viu antes do suicídio. Além disso, ela entrevistou uma amiga para quem Sylvia confessou seus sentimentos acerca da traição.
“Mas a coisa mais assustadora que ela me disse foi: “Quando você entrega todo o coração a uma pessoa e ela não aceita, não dá pra pegar de volta. Você o perde pra sempre.”
O problema é que, após o suicídio, Ted Hughes ficou responsável pelas obras feitas em vida por Sylvia Plath. Ele proibiu a publicação de vários poemas e textos dos diários, vários deles que se referiam ao casamento entre os dois.
A mulher calada não aborda apenas Ted Hughes, também cita a sua irmã, Olwyn Hughes. Ela não tinha uma boa relação com Plath. Janet Malcolm aborda toda a influência dos irmãos nas criações das biografias sobre Plath.  Toda a dificuldade de se entender a pessoa sobre a qual está se escrevendo e sobre como lidar com os vivos que a conheceram. Os irmãos estão constantemente censurando quem tenta escrever uma biografia sobre Plath. Essa é a discussão sobre os limites da biografia citada na capa do livro. O debate é interessante, em nenhum momento fica maçante. Janet Malcolm faz ótimas referências, entre elas, uma em que compara a ida da americana Plath para morar na Inglaterra. Ela é colocada como Isabel Archer, do romance Retrato de uma senhora. Ted é Osmond e Olwyn é Madame Merle.
A mulher calada é uma discussão sobre biografias dentro de uma diferente biografia. 
As discussões presentes no livro lembram uma frase do romance de Bernardo Carvalho, Nove noites: "Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos". Ted Hughes que o diga.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Eu, robô, de Isaac Asimov

Unknown
Eu, robô é um clássico da ficção científica que reúne nove contos sobre robôs escritos por Isaac Asimov (1920-1992). O pai da ficção científica (ou o Bom Doutor, como é carinhosamente conhecido pelos fãs) foi um grande cientista que nasceu na Rússia, mas se naturalizou estadunidense aos oito anos, em 1928. Além de cientista, foi um grande escritor, e seu caso como escritor de contos sob a temática da robótica começou em 1939 quando surgiu Robbie, sua primeira história de um robô, este criado para ser a babá de uma criancinha, cuja mãe se mostra temerosa diante da situação.

O fato é que o tema não era novidade; não foi uma invenção de Asimov. Pelo contrário, ele próprio diz haver indícios de histórias da Idade Média, e até da Antiguidade, que possuem seres humanos mecânicos. O porém reside no porquê das histórias de seu tempo mostrarem o lado negativo dos robôs, sempre acabando em catástrofes. A palavra "robô" surgiu pela primeira vez numa peça de teatro da Checoslováquia intitulada "R.U.R.", em 1921. Sua negatividade era tamanha que Asimov a compara a uma Frankenstein da ficção científica. 

Mas por que uma criação humana tão incrível como um ser humano mecânico teria que representar obscuridade, e não algo positivo? A ciência, para ele, deveria triunfar com a sabedoria; assim como o fogo era perigoso para o homem, mas mesmo assim ele conseguiu domesticá-lo, os robôs poderiam significar um viés vantajoso sem transparecer negatividade. É por essa ideia que Isaac Asimov passou a escrever contos que possuem um conflito relacionado a robôs a ser resolvido, com soluções inicialmente inexistentes, os quais terminam de uma maneira genial, mas não negativa. 

Todos os nove contos possuem um clímax e um desenvolvimento que cativam o leitor. Vou além: desde o primeiro momento eles instigam a nossa curiosidade; precisamos chegar ao final para acompanharmos a saída para tal problema complexo. Precisamos continuar a leitura porque são histórias que, apesar de existirem por si só, afinal elas foram escritas separadamente (só depois é que compilaram num único volume), possuem pelo menos uma personagem que conduz uma espécie de fio narrativo que os perpassa. Esta personagem é a Susan Calvin, psicóloga roboticista, "a primeira grande profissional de uma nova ciência". Ela faz parte da U. S. Robots and Mechanical Men, uma grande empresa criadora de robôs que estará presente em todos os contos. A própria Susan aparece em vários contos, sobretudo como uma dos cientistas escalados para solucionar o problema em questão, ou como a entrevistada da Imprensa Interplanetária por estar se aposentando. 

Mas se Asimov não criou a temática dos robôs, ele formulou algo para ser chamado de "o pai da robótica": as Três Leis da Robótica. Essas leis, basicamente, permitem a existência pacífica dos robôs em sociedade. Ou, para ser mais clara, viabiliza o projeto de Asimov de uma sabedoria não perigosa para os humanos – que fosse, portanto, limitada e controlada.
1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2ª Lei: Um robô deve obedecer os seres humanos, exceto nos casos em as ordens entrarem em conflito com a Primeira Lei.
3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência, a menos que tal proteção entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.
Mais tarde Asimov acrescentou a “Lei Zero”, acima de todas as outras: um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal.
Tais leis permeiam todos os contos, explícita ou implicitamente, mas de forma bastante evidente em sua maioria, até porque serão usadas nas soluções – e questionamentos – dos problemas em pauta. Quando a leitura de cada conto se inicia, a ideia geral que temos sobre histórias dessa temática traz a sensação de que algo muito ruim vai acontecer com os seres humanos em contato com os robôs, mas a surpresa aqui envolvida não é incomum. As histórias possuem um enredo de entusiasmar, de deixar nervoso e, até mesmo, de aquecer o coração. Isso porque o primeiro conto, também o primeiro escrito pelo autor, Robbie, relata a amizade entre uma babá mecânica e uma menininha, além da separação deles por conta do medo da mãe de que aquele relacionamento fosse nocivo à filha. Era o início da criação de robôs e havia um receio generalizado acerca dos perigos que a convivência com máquinas poderia ocasionar. Corta o coração, mas também é um enredo belo.

Já o segundo conto, Andando em círculos, narra o caos que se instala numa operação em Mercúrio referente ao aparente não funcionamento de um robô especializado, que indica não obedecer às ordens dos cientistas e, assim, desrespeitar a Segunda Lei. O terceiro, Razão, é um conto curioso sobre um robô que questiona a existência dos seres humanos (ele se vê como mais resistente e muito menos limitado por ser mais inteligente e não precisar se alimentar, dormir etc.) e encontra a religiosidade. É preciso pegar o coelho é a quarta história, e nela robôs agem de forma estranha quando não são supervisionados por humanos, manifestando danças esquisitas. Mentiroso!, o quinto, é fascinante na medida em que apresenta conflitos psicológicos diante de um robô que, durante sua montagem e programação, saiu acidentalmente da fórmula padrão e passa a ler mentes. No sexto, Um robozinho sumido, descobre-se que foi criado um número limitado de robôs nos quais a Primeira Lei foi implantada de forma atenuada. Isto causa um alarme em Susan, a psicóloga roboticista, sobretudo quando descobrem que um desses sumiu e parece estar se escondendo de propósito no meio de 62 outros robôs idênticos a ele (só que com a Primeira Lei de acordo com o padrão estabelecido). O desafio de encontrá-lo se faz exaustivo. Em Evasão!, o sétimo conto, a humanidade parece ter finalmente criado uma nave que faz viagens intergaláticas, a qual planeja, ela própria, o sequestro de dois cientistas. Na sequência, Evidência, apresenta um futuro no qual é possível a criação de robôs idênticos ao homem, e também insere o elemento da política. Há, aqui, um candidato à eleição que é acusado de ser um robô, e não um ser humano (mas como saber se é uma máquina ou um ser humano?). E, por fim, o nono, O conflito evitável, cria uma realidade na qual o planeta é dividido em quatro grandes regiões controladas por máquinas responsáveis por manter o equilíbrio da humanidade.

De forma geral, os nove contos possuem temáticas bem delineadas e variadas, e a maioria extremamente curiosa, como o caso no qual uma máquina pode ler os pensamentos alheios ou quando se coloca em questão a essência/existência humana. A narrativa é fluida e parece tragar o leitor para as histórias apresentadas. No fim, ele vai pensar duas vezes se realmente quer um robô em sua vida, mas ainda assim a ideia não deixará de encantá-lo, principalmente se as Três Leis da Robótica fossem colocadas em prática.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe

Unknown
a máquina de fazer espanhóis é um livro de extrema sensibilidade. Escrito por Valter Hugo Mãe, conquista o leitor com reflexões que acometem todas as pessoas sobre a velhice e sobre o amor. Por meio de um formato pouco convencional, a máquina de fazer espanhóis é escrito inteiramente em letras minúsculas, além de não apresentar nenhuma marcação de diálogo. O romance tem como personagem principal um Silva, Antonio Jorge da Silva, barbeiro de 84 anos, que é mandado pela família a um asilo, após a morte de sua amada Laura, com quem compartilhou mais de meio século de vida. Convivemos, durante 250 páginas, com um idoso de luto que, apesar de não se expressar explicitamente, nos transmite os mais íntimos sentimentos e pensamentos humanos.

A história se passa no tempo presente, retomando a memória individual do senhor Silva, que representa a coletividade portuguesa dos muitos senhores Silvas. O passado de uma ditadura salazarista são memórias que todos os personagens têm em comum e que, momentaneamente, guiam a reflexão sobre o presente e os legados sociais para o país.

O asilo como espaço principal está repleto de figuras icônicas que marcam o leitor, assim como o próprio Silva que se vê exposto a um novo ambiente, tendo que se adaptar a uma nova vida. O Feliz Idade - que talvez coincidentemente nos lembre a palavra felicidade, mas uma denominação que entra em pleno conflito com a acertiva do senhor Silva que o encara como “o matadouro para onde fui mandado” - é dividido em duas alas. Na ala debaixo, encontram-se os quartos com janelas para o jardim, destinados aos velhos que ainda estão saudáveis. No andar de cima, lamentavelmente, viviam os idosos que encaravam a iminência da morte, era “a ala dos já descerebrados, aqueles que não fazem nada, senão esperar a hora de se entornarem janela abaixo para o cemitério”.

Nos deparamos, ao longo da leitura, com pessoas que influenciam a vida de Silva, fazendo-o sair de seu comportamento estático e imutável, repleto de tristeza, angústia e rancor, transformando-o naquele que não mais se cala diante dos próprios sentimentos e acontecimentos da vida. O Esteves sem metafísica é um desses senhores. Vindo diretamente do poema de Fernando Pessoa, A Tabacaria, o Esteves - aquele quem o poeta via sempre ir à Tabacaria e que não possuía preocupações transcendentais - foi o motivo de inúmeras discussões sobre o país e a importâncias da própria nação. Apesar de não ser um livro político, aqueles velhos, nos anos finais de suas vidas, levantam questionamentos extremamente pertinentes sobre a história recente de Portugal, sobre o pertencimento a uma pátria que é “uma máquina de fazer espanhóis”. A metafísica percorre todo o romance e ressignifica o que aqueles idosos pensam sobre o passado e os sentidos que dão à sua própria existência.

No asilo, rodeado por pessoas de sua idade, o Silva redescobre sentimentos e aprende a conviver com a dor da perda de um amor. Inúmeros são os momentos de rememoração sobre Laura, sua mulher, que com certeza teria amado conhecer o Esteves. Lá ele partilha o mesmo resto de destino de todos os idosos, com os quais não só aprende a conviver, mas faz verdadeiras amizades: “nunca eu teria percebido a vulnerabilidade a que um homem chega perante outro. nunca teria percebido como um estranho nos pode pertencer, fazendo-nos falta. não era nada esperada aquela constatação de que família também vinha de fora do sangue, de fora do amor ou que o amor podia ser outra coisa, como uma energia entre pessoas…”

a máquina de fazer espanhóis é um livro triste, mas antes de tudo é um livro que faz pensar sobre a vida, o amor, a velhice e a morte.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Pax, de Sara Pennypacker

Unknown
As maçãs não caem longe das árvores.
É essa frase que acompanha Peter, de 12 anos, ao longo de todo o livro. A trajetória de amadurecimento do menino e sua raposa – ou da raposa e seu menino – nos mostra como é difícil crescer e manter sua essência, como é difícil crescer e não se tornar aquilo que juramos para nós mesmos que nunca seríamos. Mas, principalmente, como é difícil saber qual é o nosso lugar no mundo – e qual é o lugar daqueles que amamos também.

Tendo a guerra como pano de fundo, "Pax" conta a história de um garoto que precisa se separar do seu animal de estimação, a raposa que dá nome ao romance, e mostra todo o caminho que ele percorreu na tentativa de reencontrá-lo. Caminho esse que traz à tona a raiva e a vontade de Peter de se diferenciar da figura do pai, além da sua necessidade de mostrar que sua relação de amizade e confiança com Pax não é banal e desimportante, não é uma coisa sobre a qual a guerra pode passar por cima.
Criei minha raposa desde que ela era filhote. Minha raposa confiava em mim. Ela não vai saber sobreviver lá fora. Não importa se é "só uma raposa"... É assim que meu pai diz, "só uma raposa" [...]
A narrativa se constrói com alternância de narradores: os capítulos ímpares do livro são narrados sob a perspectiva de Pax, e o pares, sob a de Peter. Sara Pennypacker, a autora, se dedicou durante algum tempo a estudar o comportamento das raposas-vermelhas, o que trouxe um tom verossímil aos capítulos do animal, fazendo com que o leitor se sinta tão próximo dele quanto de Peter.


Essa verossimilhança, aliada aos temas profundos tratados, fazem de "Pax" um daqueles livros que, apesar de serem dirigidos ao público infantil, só alcançam seu sentido pleno quando lidos por olhos mais experientes. A história de Peter e Pax possui sutilezas que dificilmente são percebidas por crianças, possui uma melancolia bonita que dificilmente será compreendia por elas.

Lidar com a raiva, a culpa e com relacionamentos familiares problemáticos são os desafios enfrentados por Peter durante sua busca pelo amigo. Já Pax enfrenta a natureza; o selvagem e o desconhecido se apresentam à raposa domesticada pela primeira vez. É então que surge Vola na vida de Peter, e Cinzento, Arrepida e Miúdo na vida de Pax. Os típicos personagens-ponte, que ajudam os protagonistas durante a travessia rumo ao entendimento e crescimento.

Ao final, o livro nos deixa o questionamento de qual é o propósito da guerra, esse microcosmo afetado (relação menino-raposa) serve de metáfora para a devastação e para os sacrifícios feitos em nome de um suposto lado certo – que é relativo, como Vola nos ensina. Crescer tem mesmo que ser um processo destrutivo? Ser adulto é agir com falsidade? Talvez as maçãs possam cair no lugar em que quiserem. Talvez sempre haja uma varanda para qual voltar.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Paddy Clarke Ha Ha Ha, de Roddy Doyle

Unknown
Paddy Clarke Ha Ha Ha é um ótimo livro para comemorar o mês das crianças. Narrado pelo próprio Paddy Clark (apelido carinhoso para Patrick), a obra se passa nas ruas de Dublin, na Irlanda dos anos 1960, e é repleta de risadas, como no título. Escrito pelo irlandês Roddy Doyle, famoso por The Commitments, o texto não é complexo, mas encanta justamente pela simplicidade. 

Patrick tem 10 anos e é curioso como qualquer criança dessa idade. Como na maioria das famílias tradicionais da época, ele tem um pai que trabalha fora e uma mãe que cuida da casa, além de outros três irmãos mais novos. É engraçado notar que em grande parte das cenas familiares, Paddy está fazendo perguntas: seja na mesa de jantar ou na sala de TV – onde o pai está sempre sentado em sua poltrona, lendo o jornal do dia –, o garoto adora questionar. 

A narração é devidamente simples, constituindo-se de frases curtas, já que o narrador se distrai com tudo que vê. Ele frequentemente muda de um assunto para outro sem conectá-los logicamente, seguindo sua linha de pensamento conforme anda pelas ruas dublinenses. Isso, no entanto, não atrapalha a leitura: é interessante seguir seu fluxo de consciência. 

O livro pode ser bastante nostálgico. É bom passar pelas páginas e lembrar de quando se tinha aquela idade e tudo parecia muito simples. Os limites de seu mundo empírico coincidem com os da cidade em que vive, mas sua imaginação vai muito além. Sempre inventa novas brincadeiras, faz novos amigos, caçoa mentalmente do professor: tem o espírito de sua idade. 

Mas não pense que é uma obra infantil. Paddy Clark abre os olhos adultos justamente por ser contado por uma criança. Faz refletir sobre tempos já idos e, esperançosamente, fará com que o leitor adulto repense o modo como vive. Nunca se é velho demais pra ser criança. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O orfanato da srta. Peregrine para crianças peculiares, de Ransom Riggs

Unknown
“Eu tinha acabado de aceitar que minha vida seria apenas comum quando as coisas extraordinárias começaram a acontecer comigo” (Riggs, 2008, p.8). É assim que Ransom Riggs, cineasta e autor de O orfanato da srta. Peregrine para crianças peculiares abre a fascinante história de Jacob Portman, garoto de 16 anos que vive no leste dos Estados Unidos da América, um tanto resignado, com poucos amigos e funcionário entediado da franquia de supermercados de sua família.

Jacob cresceu ouvindo as fantásticas histórias de seu avô, Abe Portman, sobre um orfanato único em que o próprio cresceu durante a segunda guerra mundial. Nesse casarão, no meio de uma ilha do País de Gales, moravam crianças que possuíam habilidades especiais, peculiares, sobre a proteção de uma senhorita Peregrine. De uma garota que flutua até um menino que possui um enxame de abelhas dentro do corpo, Jacob se fascinava com cada história, e para comprovar todas elas, seu avô mantinha dentro de uma caixa de sapato, debaixo da cama, fotos desbotadas da maioria desses seres. Com o passar dos anos, no entanto, Jacob começou a desconfiar desse mundo mágico, conforme se adequava à realidade sem graça de seu cotidiano, e enterra de vez os “contos de fadas” de seu avô.

Em um entardecer, porém, depois de receber um telefonema desesperado de seu avô, Jacob vai até sua casa em um condômino no subúrbio da cidade, para encontrá-lo no meio de um matagal nos fundos de seu terreno, ensanguentado e com um fio de vida. Desesperado, o menino procura em volta o autor de tamanha atrocidade, para se deparar com uma criatura medonha e disforme, no meio da escuridão.

A partir daí seguimos Jacob em um enorme tormento psicológico regado por pesadelos, angústias, frustrações e idas ao psiquiatra. Até que, em seu aniversário, recebe das mãos de sua tia um presente deixado por seu avô, uma pista de suas últimas palavras que o levará à por a prova a veracidade de todas as histórias ouvidas em sua infância, e conhecer as crianças peculiares do orfanato da srta. Peregrine.

Ramson Riggs escreve uma história cheia de mistérios com uma trama espetacular, sua narrativa é quase cinematográfica (motivo que possivelmente levou Tim Burton a dirigir o filme homônimo, estreado no último dia 29) e o mundo criado para abrigar as crianças peculiares é, de fato, peculiar. Embora a divisão dos capítulos não seja tão criteriosa, nos primeiros momentos, após a morte do avô Portman, o autor explora bem a temática de uma realidade traumática, vivido por aqueles que enfrentaram a segunda guerra mundial, e que para superar essa dor,  criaram uma outra realidade, motivo pelo qual os pais de Jacob não acreditavam nas histórias do orfanato. Bem como o trauma da perda de um ente querido, adicionado ao choque de ser o único a ver o verdadeiro assassino de seu avô. Em determinadas partes do livro, após esse primeiro devaneio entre o real e o imaginário, o leitor pode se perguntar se aquilo que Jacob está vivendo é mesmo real, ou parte de suas fantasias para superar os eventos que presenciou.

Outro ponto interessante na narrativa de Riggs é o que o teórico suíço Tzvetan Todorov chama de maravilhoso fantástico, ou seja, o sobrenatural “[...] explicado de uma maneira racional mas a partir de leis que a ciência contemporânea não reconhece.”(Todorov, 2012, p.63). Assim, a existência das crianças peculiares é explicada pela própria srta. Peregrine: “A composição da espécie humana é infinitamente mais diversa do que a maioria dos humanos suspeita [...]. Para começar, há uma dicotomia simples: existem os coerlfolc, a grande massa de pessoas comuns que formam a numerosa humanidade, e há o ramo oculto, os cripto-sapiens, se preferir, que são chamados de syndrigast, ou 'espírito peculiar' [...]. Como sem dúvida você já deve ter percebido, aqui nós somos desse último tipo” (Riggs, 2008, p.144). Introduzindo ao leitor a verossimilhança narrativa, ou seja, uma realidade plausível segundo as leis criadas por Riggs.  

Embora a obra possa ser considerada um Young Adult, o autor parece se confundir em manter uma consistência estilística, vide alguns palavrões densos proferidos pelas personagens em comparação a um clímax fraco um tanto desorientado. O não aprofundamento das relações de Jacob com sua vida nos EUA torne talvez um pouco óbvio o desfecho da trama. Da mesma forma, as crianças peculiares, que possuem um potencial muito grande, poderiam ter sido mais desenvolvidas. Fica então em aberto um gancho narrativo que será desenvolvido nos próximos dois livros da trilogia, com mais mistérios e peculiaridades.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O Sonho de Einstein: Em busca da teoria do todo, de Pietro Greco

Unknown
“O Sonho de Einstein: Em busca da teoria do todo”, de Pietro Greco

    Gênio. Esta é a primeira (e mais recorrente) palavra a qual o público relaciona o mundialmente reconhecido autor da Teoria da Relatividade, o físico alemão Albert Einstein (1879-1955). Curiosamente, no mesmo ano da morte de Einstein nasce o químico, escritor e jornalista italiano Pietro Greco, que muitos anos depois descreve e apresenta seus comentários não só da Teoria da Relatividade, como também dos estudos diferentes daqueles aclamados pela imprensa. Greco, autor do livro “O sonho de Einstein: em busca da teoria do todo” amplia a visão que o senso comum traça de Einstein: os estudos supervalorizados da Teoria da Relatividade atingem cerca de 10 anos de atividade do cientista (1905-1917), ofuscando 40 anos da busca pela unificação entre a relatividade geral e a teoria quântica.


    O livro mostra-se bem completo no quesito contexto pois o autor aborda tanto aspectos históricos quanto a progressão científica desde Galileu até o próprio Einstein. Greco apresenta seu trabalho com dois tipos de panoramas: um curto resumo sobre a vida do físico alemão e outro sobre os objetivos da busca de uma unidade entre as teorias propostas por físicos, matemáticos e químicos da primeira metade do século XX. Com um panorama rápido sobre a vida acadêmica e pessoal de Einstein, Pietro Greco fornece informações ao leitor como o primeiro mestre condutor de Einstein nas ciências da natureza (o estudante de medicina hospedado em sua casa, Max Talmud), suas primeiras leituras de imersão e sua formação acadêmica entremeada aos fatos pessoais. E em segundo lugar, o autor apresenta as escolhas feitas por Einstein ao longo de sua tentativa de unificação do campo gravitacional e do campo eletromagnético: as estratégias teóricas que aparecem com o viés de complementação da teoria de unificação das duas áreas da física (gravitação e eletromagnetismo) são inúmeras e diversificadas, o que implica em recusas (depois de várias tentativas) dos métodos geométricos de grandes cientistas como Theodor Kaluza, Oscar Klein e Bernhard Riemann e manutenção dos preceitos de James Maxwell, Isaac Newton e Max Planck.
    “A natureza possui, portanto, uma profunda unidade. Ou, para usar uma metáfora de Galileu, o livro da natureza é escrito todo na mesma linguagem.” (Greco, 2011, p.33)
    A tendência de Einstein de buscar uma síntese simples e elegante da unificação do campo gravitacional e do campo eletromagnético através da intuição fomentada pela observação da natureza, ao contrário da formalidade restrita da maioria dos físicos teóricos, é o um dos itens que mais chama a atenção em todo livro.
“As teorias físicas não são descobertas de uma verdade escondida, mas criações livres da mente humana. Intuições. (...). Intuímos e elaboramos teorias físicas, portanto, com base em preconceitos metafísicos. Naturalmente nada nos garante que a teoria elaborada por meio da intuição, ou seja, da livre criatividade da mente seja correto.Temos,porém uma maneira eficiente para controlar,a posteriori, a correção do caminho escolhido: a teoria deve aderir fatos conhecidos e prever novos fatos a serem levantados” (Greco, 2011, p.47-48)
Einstein não deve ser considerado um gênio somente pela capacidade intelectual de formular e desenvolver teorias complexas; deve ser considerado um gênio pela característica diferenciadora da união entre a sensibilidade para intuir, a sinceridade da sua insatisfação perante a incompletude de suas descobertas e o caráter mediador entre física e filosofia. A crença de que tudo obedece uma lei e que a realidade não lida nenhum tipo de acaso (“Deus não joga dados com o mundo”) norteia a sua busca pela unidade do todo até os últimos esboços antes de sua morte. Se o sonho é realizado ou não, cabe ao leitor utilizar sua curiosidade para chegar às conclusões finais de Greco sobre o trabalho persistente de Einstein.

“O sonho de Einstein: Em busca da teoria do todo” é um livro direcionado preferencialmente ao público de leituras acadêmicas e específicas da área, mas, por sua vez, entusiastas do campo podem compreender o conteúdo, sem exaustos sacrifícios, pela linearidade, analogias e reiterações muito bem delineadas por Pietro Greco.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

1 Milhão de Motivos para Casar, deGemma Townley

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(Fonte)
Em 1 Milhão de Motivos para Casar, Gemma Townley, irmã da famosa Sophie Kinsella, conta a história de Jessica Wild, publicitária londrina de 20 e tantos anos, criada por sua avó, que, por ter sido abandonada pelo marido, não crê no amor e transmite alguns valores para sua neta como a autossuficiência, independentemente do casamento.
Entretanto, os valores de Jessica acerca do matrimônio são colocados em xeque quando Jess é a única indicada para receber a herança milionária de sua amiga, Grace, que conhecera durante as visitas à sua avó no asilo. Grace, que não tinha familiares para visitá-la, era uma romântica incorrigível e adorava ouvir as histórias de Jessica, ao contrário de sua avó, que lhe fazia críticas constantes. Durante as visitas, Grace sempre perguntava sobre a vida amorosa de Jess. Temendo decepcionar ou até mesmo piorar a saúde de sua amiga, Jessica inventa um relacionamento com seu chefe, Anthony Milton, dono de uma das maiores agências de publicidade de Londres. Assim, Jess só poderia receber a herança se assinasse como Jessica Milton, seu nome de casada.
“Mas esse é o problema dos contos de fadas – eles acalentam o coração, são reconfortantes e tem finais felizes, e mesmo você sabendo que a vida não é assim, é agradável fingir que aquilo é real, só um pouquinho.”
Depois de muito refletir sobre o assunto e pesar os prós e os contras com a ajuda de sua melhor amiga, Jess cria o “Projeto de Casamento”, que consiste em usar o prazo de 50 dias a partir da emissão do testamento para retirar a herança, composta por uma casa e um montante em dinheiro, conquistando Anthony e realizando o sonho de sua querida amiga. Para isso, será necessário deixar de lado tudo o que sempre aprendeu sobre casamento, deixar de ser uma workaholic e encarnar a sedutora Jessica Wiiiild - que, traduzindo seu sobrenome para o português, seria “selvagem”.
Porém, o caminho é mais tortuoso do que ela imagina. Desde uma súbita amizade com sua colega de trabalho, Márcia, até a constante irritação de Max, vice diretor da agência, quando Jess começa a ser relapsa com seus deveres no trabalho para focar-se em conquistar Anthony. Será que Jessica Wild vai conseguir tornar-se a Sra. Milton e herdar a fortuna de Grace? Ou vai admitir que tudo não passou de uma invenção e continuar sua vida como era antes?
A história é narrada em primeira pessoa por Jessica, o que contribui para uma narrativa fluida e envolvente. Apesar de ser um romance previsível, Gemma consegue transmitir o desenvolvimento da personagem principal, a qual questiona o que realmente pensa sobre o casamento e quais são os motivos que deveriam estar por trás de um compromisso como esse. A partir disso, a autora traz uma discussão mais profunda para o romance, que tem uma temática aparentemente clichê, como a de uma caça ao marido comum. Essa discussão consiste no questionamento moral da escolha entre um casamento por interesse e da dualidade entre a perda do dinheiro e o real merecimento dessa herança, visto que Jessica mentiu para Grace. Ainda assim, não foge da leitura divertida proporcionada por um bom livro de chick-lit.
Um Milhão de Motivos para Casar é o primeiro livro da trilogia de Gemma Townley que tem Jessica Wild como protagonista. Os dois seguintes ainda não foram lançados no Brasil, mas tomara que isso aconteça em breve!

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Dias de abandono, de Elena Ferrante

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        O adultério sempre foi um tema presente na literatura – nomes como Anna Karenina, Dom Casmurro e Madame Bovary são amplamente conhecidos. Em Dias de abandono, Elena Ferrante traz mais uma personagem para integrar o rol: o romance narra o processo de abandono sofrido por Olga após o pedido de divórcio feito pelo marido, Mario.

Sobre a autora, é interessante destacar que Elena Ferrante é um pseudônimo. A escritora italiana por trás do romance não dá entrevistas, não tira fotos e faz questão que sua identidade seja mantida em segredo. A única informação concreta é a de que começou a escrever em 1991.

Em 2015, o primeiro livro da tetralogia napolitana, A amiga genial, chegou ao Brasil pela editora Biblioteca Azul. A série, que narra a amizade entre duas mulheres, traz o tão necessário protagonismo feminino e focaliza os dilemas vividos por mulheres atualmente. A discussão continua em Dias de abandono, escrito em 2002 e lançado neste ano pela mesma editora, no Brasil.

No livro, Olga sente-se abandonada após um pedido de divórcio. Dedicou a sua vida ao marido e deixou de lado a ambição de escrever para ajudá-lo em sua carreira. Ao mostrá-la sozinha, com duas crianças e todas as responsabilidades, o romance descreve o processo de reconstrução da vida da personagem. Olga passa pela raiva, pela tristeza e pela redescoberta de sua vida afetiva, sexual e profissional.

Ferrante possui uma voz única e afiada. Narrado em primeira pessoa, o leitor acompanha os pensamentos da personagem feminina com proximidade. 
"Tudo era tão casual. Apaixonei-me por Mario quando jovem, mas poderia ter me apaixonado por qualquer um, um corpo qualquer ao qual atribuímos sabe-se lá quais significados. Um longo pedaço de vida juntos, e você já acredita que ele é o único homem com quem pode se sentir bem, atribui-lhe sabe-se lá quais virtudes decisivas, e em vez disso ele é só uma flauta que emite sons de falsidade, você não sabe realmente quem é, nem ele mesmo. Somos ocasiões. Consumimos e perdemos a vida porque um qualquer, em tempos longínquos, por vontade de descarregar o pau dentro de nós, foi gentil, nos escolheu entre as mulheres."
 Mais do que uma história sobre adultério e abandono, Dias de abandono fala sobre um intenso desejo de se reconstruir e tomar novamente o poder para si.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Desonra, de J. M. Coetzee

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John Maxwell Coetzee, escritor sul-africano, é atualmente apontado com um dos grandes nomes da literatura contemporânea mundial. Autor de mais de 20 livros, entre ficção, ensaios de crítica literária, traduções e memórias foi o primeiro autor a ganhar dois Booker Prizer: o primeiro por Vida e época de Michael K (Cia das letras, 2003) e o segundo por Desonra (Cia das letras, 2000). Angariou também o prêmio Nobel de literatura em 2003.

Desonra, ou poderíamos mesmo dizer desonras, foi escrito em linguagem límpida, que não transmite dificuldades gramaticais para seus leitores. Coetzee nos conta uma história no bom e velho método tradicional, seguindo uma única linha cronológica com começo, meio e fim. Envolve por sua construção frasal simples e pela fluidez da leitura; o leitor constantemente se vê diante de um novo momento da vida do protagonista David Lurie, o que o instiga a continuar.

Se contudo, a linguagem não se deixa carregar, a trama, por outro lado, monta com complexidade as relações pessoais pós-apartheid na África do Sul. No enredo a simplicidade da sintaxe dá lugar a um mundo de possibilidades interpretativas quando ingressamos no ritmo da narrativa e no pensamento do personagem.

Aos 52 anos, David Lurie, sente-se fatigado e desiludido. Ele é um professor de literatura, com 25 anos de carreira, que foi obrigado a curvar-se diante das mudanças universitárias que padronizaram o ensino; a maioria de suas aulas é dada por obrigação, ele não vê interesse nos alunos, ligeiramente bestializados aos seus olhos, e, por sua vez, ele próprio não envolve-se com o seu fazer. Deseja deixar uma marca no mundo, contudo considera medíocres as obras que escreveu como acadêmico. Fora da vida profissional, sua única “produção” foi uma filha, Lucy, uma mulher independente, com menos de 30 anos de idade, que vive segundo seus preceitos na zona rural de Cabo Leste. Apesar de amá-la incondicionalmente o personagem não sente na paternidade uma verdadeira produção: “comparado a ser mãe, ser pai é uma coisa abstrata demais”.

A psicologia do protagonista, transmitida, às vezes, em voz narrativa, às vezes, por meio de diálogos com outros personagens, traz à tona suas opiniões contraditórias e também preconceituosas revestidas de fina ironia – as relações raciais, de diferenças entre as gerações e principalmente de gênero podem ser constantemente notadas.

No decorrer dos 24 capítulos a história desenvolve-se abrindo, cada vez mais, espaços para a falência material e pessoal do protagonista. Seu envolvimento com Melanie, uma aluna negra, é apenas o pontapé inicial para as desonras que surgirão em sua vida. Entre o segundo e o sexto capítulo temos toda trama do envolvimento e acusação oficial diante da comunidade acadêmica, o que nos permite entrever que se trata apenas de um contexto proposto pelo autor para ampliar sua crítica da relação entre opostos – negro e branco/ homem e mulher – na sociedade sul-africana.

Entre o capítulo oitavo até o fim da narrativa, somos transportados para a realidade ruralista de Lucy e com o transcorrer da leitura somos capazes de sentir a distância entre aqueles dois mundos – ainda assim a polarização negro/ branco, homem/mulher continua. Só que em Cabo Leste o poder feminino diminui, parece que ali a sociedade tem menos voz crítica para as diferenças e abusos, a vida impõe seu curso e sua força. No início do romance, a voz da defesa feminista (externa a concepção pessoal do protagonista), permite que ecoe na narrativa antigos remorsos de dominação – o poder do homem sobre a mulher, do branco sobre o negro. Na fazenda em Cabo Leste encontramos o negro Petrus, ajudante de Lucy, e mais uma vez somos colocados diante de um apurado jogo de domínio.  

Apesar do romance partir da visão de David – um homem mulherengo, cínico e que impõe a si uma velhice que ainda não lhe pertence – é em Lucy que encontramos mais presente a voz do autor. Assim como em A vida dos animais, onde a voz do protagonista não ressoa com as ideias do autor, em Desonra é Lucy quem defende a causa dos animais e da vida indiferentemente a espécie. Ela quer apenas viver uma boa relação com o mundo ao seu redor, e talvez por isso mesmo é quem paga o preço mais caro da história. Como pai, Lurie carrega em si a desonra sofrida pela filha. Por outro lado é a partir do que acontece com Lucy que Lurie passa a rever o seu relacionamento com a jovem Melanie e a forma como ele agiu. Hipócrita, repetidamente ele culpou a Eros – o deus do amor – pela manifestação de desejo que sentiu em relação a jovem. Na virada da história é o remorso que passa a descrever essa relação. Ele mesmo se impõe questões: será que ele seria capaz de compreender os medos e fragilidades femininas? Seria capaz de entender a superposição da força masculina sobre a mulher?

Escrito por um homem, tendo como ponto de referência um protagonista masculino, Desonra consegue ser magistralmente questionador das questões de gênero sem usar diretamente a voz da mulher. Lucy não consegue falar da dominação masculina com o pai, pois “ele não entende”; Melanie tem sua defesa transmitida por homens e em si não tem voz, não sabemos o que ela pessoalmente pensava. Se por um lado sentimos um vácuo da voz feminina, que está sempre rala, sempre cortada por incompreensões que seriam inerentes ao protagonista, por outro a narrativa não deixa de ser feminista ao questionar os limites da compreensão masculina das diversas dificuldades que podem se impor a uma mulher.

Em poucas palavras podemos descrever Desonra como um romance duro, ácido, cercado por desonras sofridas por humanos e animais, mas ainda assim belo na sua construção e profundidade da mensagem.  

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