John
Maxwell Coetzee, escritor sul-africano, é atualmente apontado com um dos
grandes nomes da literatura contemporânea mundial. Autor de mais de 20 livros,
entre ficção, ensaios de crítica literária, traduções e memórias foi o primeiro
autor a ganhar dois Booker Prizer: o primeiro por Vida e época de Michael K (Cia das letras, 2003) e o segundo por Desonra (Cia das letras, 2000). Angariou
também o prêmio Nobel de literatura em 2003.
Desonra,
ou poderíamos mesmo dizer desonras, foi escrito em linguagem límpida, que não
transmite dificuldades gramaticais para seus leitores. Coetzee nos conta uma
história no bom e velho método tradicional, seguindo uma única linha
cronológica com começo, meio e fim. Envolve por sua construção frasal simples e
pela fluidez da leitura; o leitor constantemente se vê diante de um novo
momento da vida do protagonista David Lurie, o que o instiga a continuar.
Se
contudo, a linguagem não se deixa carregar, a trama, por outro lado, monta com
complexidade as relações pessoais pós-apartheid na África do Sul. No enredo a
simplicidade da sintaxe dá lugar a um mundo de possibilidades interpretativas
quando ingressamos no ritmo da narrativa e no pensamento do personagem.
Aos
52 anos, David Lurie, sente-se fatigado e desiludido. Ele é um professor de
literatura, com 25 anos de carreira, que foi obrigado a curvar-se diante das
mudanças universitárias que padronizaram o ensino; a maioria de suas aulas é
dada por obrigação, ele não vê interesse nos alunos, ligeiramente bestializados
aos seus olhos, e, por sua vez, ele próprio não envolve-se com o seu fazer.
Deseja deixar uma marca no mundo, contudo considera medíocres as obras que
escreveu como acadêmico. Fora da vida profissional, sua única “produção” foi
uma filha, Lucy, uma mulher independente, com menos de 30 anos de idade, que
vive segundo seus preceitos na zona rural de Cabo Leste. Apesar de amá-la
incondicionalmente o personagem não sente na paternidade uma verdadeira produção:
“comparado a ser mãe, ser pai é uma coisa abstrata demais”.
A
psicologia do protagonista, transmitida, às vezes, em voz narrativa, às vezes,
por meio de diálogos com outros personagens, traz à tona suas opiniões
contraditórias e também preconceituosas revestidas de fina ironia – as relações
raciais, de diferenças entre as gerações e principalmente de gênero podem ser
constantemente notadas.
No
decorrer dos 24 capítulos a história desenvolve-se abrindo, cada vez mais,
espaços para a falência material e pessoal do protagonista. Seu envolvimento
com Melanie, uma aluna negra, é apenas o pontapé inicial para as desonras que
surgirão em sua vida. Entre o segundo e o sexto capítulo temos toda trama do
envolvimento e acusação oficial diante da comunidade acadêmica, o que nos
permite entrever que se trata apenas de um contexto proposto pelo autor para
ampliar sua crítica da relação entre opostos – negro e branco/ homem e mulher –
na sociedade sul-africana.
Entre
o capítulo oitavo até o fim da narrativa, somos transportados para a realidade
ruralista de Lucy e com o transcorrer da leitura somos capazes de sentir a
distância entre aqueles dois mundos – ainda assim a polarização negro/ branco,
homem/mulher continua. Só que em Cabo Leste o poder feminino diminui, parece
que ali a sociedade tem menos voz crítica para as diferenças e abusos, a vida
impõe seu curso e sua força. No início do romance, a voz da defesa feminista
(externa a concepção pessoal do protagonista), permite que ecoe na narrativa
antigos remorsos de dominação – o poder do homem sobre a mulher, do branco
sobre o negro. Na fazenda em Cabo Leste encontramos o negro Petrus, ajudante de
Lucy, e mais uma vez somos colocados diante de um apurado jogo de domínio.
Apesar
do romance partir da visão de David – um homem mulherengo, cínico e que impõe a
si uma velhice que ainda não lhe pertence – é em Lucy que encontramos mais
presente a voz do autor. Assim como em A
vida dos animais, onde a voz do protagonista não ressoa com as ideias do
autor, em Desonra é Lucy quem defende
a causa dos animais e da vida indiferentemente a espécie. Ela quer apenas viver
uma boa relação com o mundo ao seu redor, e talvez por isso mesmo é quem paga o
preço mais caro da história. Como pai, Lurie carrega em si a desonra sofrida
pela filha. Por outro lado é a partir do que acontece com Lucy que Lurie passa
a rever o seu relacionamento com a jovem Melanie e a forma como ele agiu.
Hipócrita, repetidamente ele culpou a Eros – o deus do amor – pela manifestação
de desejo que sentiu em relação a jovem. Na virada da história é o remorso que
passa a descrever essa relação. Ele mesmo se impõe questões: será que ele seria
capaz de compreender os medos e fragilidades femininas? Seria capaz de entender
a superposição da força masculina sobre a mulher?
Escrito
por um homem, tendo como ponto de referência um protagonista masculino, Desonra consegue ser magistralmente
questionador das questões de gênero sem usar diretamente a voz da mulher. Lucy
não consegue falar da dominação masculina com o pai, pois “ele não entende”;
Melanie tem sua defesa transmitida por homens e em si não tem voz, não sabemos
o que ela pessoalmente pensava. Se por um lado sentimos um vácuo da voz
feminina, que está sempre rala, sempre cortada por incompreensões que seriam
inerentes ao protagonista, por outro a narrativa não deixa de ser feminista ao
questionar os limites da compreensão masculina das diversas dificuldades que
podem se impor a uma mulher.
Em
poucas palavras podemos descrever Desonra
como um romance duro, ácido, cercado por desonras sofridas por humanos e
animais, mas ainda assim belo na sua construção e profundidade da
mensagem.
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