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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Desonra, de J. M. Coetzee

Unknown
John Maxwell Coetzee, escritor sul-africano, é atualmente apontado com um dos grandes nomes da literatura contemporânea mundial. Autor de mais de 20 livros, entre ficção, ensaios de crítica literária, traduções e memórias foi o primeiro autor a ganhar dois Booker Prizer: o primeiro por Vida e época de Michael K (Cia das letras, 2003) e o segundo por Desonra (Cia das letras, 2000). Angariou também o prêmio Nobel de literatura em 2003.

Desonra, ou poderíamos mesmo dizer desonras, foi escrito em linguagem límpida, que não transmite dificuldades gramaticais para seus leitores. Coetzee nos conta uma história no bom e velho método tradicional, seguindo uma única linha cronológica com começo, meio e fim. Envolve por sua construção frasal simples e pela fluidez da leitura; o leitor constantemente se vê diante de um novo momento da vida do protagonista David Lurie, o que o instiga a continuar.

Se contudo, a linguagem não se deixa carregar, a trama, por outro lado, monta com complexidade as relações pessoais pós-apartheid na África do Sul. No enredo a simplicidade da sintaxe dá lugar a um mundo de possibilidades interpretativas quando ingressamos no ritmo da narrativa e no pensamento do personagem.

Aos 52 anos, David Lurie, sente-se fatigado e desiludido. Ele é um professor de literatura, com 25 anos de carreira, que foi obrigado a curvar-se diante das mudanças universitárias que padronizaram o ensino; a maioria de suas aulas é dada por obrigação, ele não vê interesse nos alunos, ligeiramente bestializados aos seus olhos, e, por sua vez, ele próprio não envolve-se com o seu fazer. Deseja deixar uma marca no mundo, contudo considera medíocres as obras que escreveu como acadêmico. Fora da vida profissional, sua única “produção” foi uma filha, Lucy, uma mulher independente, com menos de 30 anos de idade, que vive segundo seus preceitos na zona rural de Cabo Leste. Apesar de amá-la incondicionalmente o personagem não sente na paternidade uma verdadeira produção: “comparado a ser mãe, ser pai é uma coisa abstrata demais”.

A psicologia do protagonista, transmitida, às vezes, em voz narrativa, às vezes, por meio de diálogos com outros personagens, traz à tona suas opiniões contraditórias e também preconceituosas revestidas de fina ironia – as relações raciais, de diferenças entre as gerações e principalmente de gênero podem ser constantemente notadas.

No decorrer dos 24 capítulos a história desenvolve-se abrindo, cada vez mais, espaços para a falência material e pessoal do protagonista. Seu envolvimento com Melanie, uma aluna negra, é apenas o pontapé inicial para as desonras que surgirão em sua vida. Entre o segundo e o sexto capítulo temos toda trama do envolvimento e acusação oficial diante da comunidade acadêmica, o que nos permite entrever que se trata apenas de um contexto proposto pelo autor para ampliar sua crítica da relação entre opostos – negro e branco/ homem e mulher – na sociedade sul-africana.

Entre o capítulo oitavo até o fim da narrativa, somos transportados para a realidade ruralista de Lucy e com o transcorrer da leitura somos capazes de sentir a distância entre aqueles dois mundos – ainda assim a polarização negro/ branco, homem/mulher continua. Só que em Cabo Leste o poder feminino diminui, parece que ali a sociedade tem menos voz crítica para as diferenças e abusos, a vida impõe seu curso e sua força. No início do romance, a voz da defesa feminista (externa a concepção pessoal do protagonista), permite que ecoe na narrativa antigos remorsos de dominação – o poder do homem sobre a mulher, do branco sobre o negro. Na fazenda em Cabo Leste encontramos o negro Petrus, ajudante de Lucy, e mais uma vez somos colocados diante de um apurado jogo de domínio.  

Apesar do romance partir da visão de David – um homem mulherengo, cínico e que impõe a si uma velhice que ainda não lhe pertence – é em Lucy que encontramos mais presente a voz do autor. Assim como em A vida dos animais, onde a voz do protagonista não ressoa com as ideias do autor, em Desonra é Lucy quem defende a causa dos animais e da vida indiferentemente a espécie. Ela quer apenas viver uma boa relação com o mundo ao seu redor, e talvez por isso mesmo é quem paga o preço mais caro da história. Como pai, Lurie carrega em si a desonra sofrida pela filha. Por outro lado é a partir do que acontece com Lucy que Lurie passa a rever o seu relacionamento com a jovem Melanie e a forma como ele agiu. Hipócrita, repetidamente ele culpou a Eros – o deus do amor – pela manifestação de desejo que sentiu em relação a jovem. Na virada da história é o remorso que passa a descrever essa relação. Ele mesmo se impõe questões: será que ele seria capaz de compreender os medos e fragilidades femininas? Seria capaz de entender a superposição da força masculina sobre a mulher?

Escrito por um homem, tendo como ponto de referência um protagonista masculino, Desonra consegue ser magistralmente questionador das questões de gênero sem usar diretamente a voz da mulher. Lucy não consegue falar da dominação masculina com o pai, pois “ele não entende”; Melanie tem sua defesa transmitida por homens e em si não tem voz, não sabemos o que ela pessoalmente pensava. Se por um lado sentimos um vácuo da voz feminina, que está sempre rala, sempre cortada por incompreensões que seriam inerentes ao protagonista, por outro a narrativa não deixa de ser feminista ao questionar os limites da compreensão masculina das diversas dificuldades que podem se impor a uma mulher.

Em poucas palavras podemos descrever Desonra como um romance duro, ácido, cercado por desonras sofridas por humanos e animais, mas ainda assim belo na sua construção e profundidade da mensagem.  

Unknown / Perfil

Associação civil sem fins lucrativos formada por alunos do Instituto de Estudos da Linguagem, a Odisseia foi idealizada com o objetivo de preparar seus integrantes para o mercado de trabalho. Seus serviços oferecidos incluem coaching, revisão e análise crítica/parecer crítico; tópicos que estão, de certa forma, inseridos na criação dos cursos de Estudos Literários, Letras e Linguística. Além de oferecer esses serviços, a empresa busca estabelecer um vínculo maior entre os estudantes do Instituto de Estudos de Linguagem da UNICAMP (IEL) e o mercado editorial.

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