Jacob cresceu ouvindo as fantásticas histórias de seu avô, Abe Portman, sobre um orfanato único em que o próprio cresceu durante a segunda guerra mundial. Nesse casarão, no meio de uma ilha do País de Gales, moravam crianças que possuíam habilidades especiais, peculiares, sobre a proteção de uma senhorita Peregrine. De uma garota que flutua até um menino que possui um enxame de abelhas dentro do corpo, Jacob se fascinava com cada história, e para comprovar todas elas, seu avô mantinha dentro de uma caixa de sapato, debaixo da cama, fotos desbotadas da maioria desses seres. Com o passar dos anos, no entanto, Jacob começou a desconfiar desse mundo mágico, conforme se adequava à realidade sem graça de seu cotidiano, e enterra de vez os “contos de fadas” de seu avô.
quinta-feira, 20 de outubro de 2016
O orfanato da srta. Peregrine para crianças peculiares, de Ransom Riggs
“Eu tinha acabado de aceitar que minha vida seria apenas comum quando as coisas extraordinárias começaram a acontecer comigo” (Riggs, 2008, p.8). É assim que Ransom Riggs, cineasta e autor de O orfanato da srta. Peregrine para crianças peculiares abre a fascinante história de Jacob Portman, garoto de 16 anos que vive no leste dos Estados Unidos da América, um tanto resignado, com poucos amigos e funcionário entediado da franquia de supermercados de sua família.
Jacob cresceu ouvindo as fantásticas histórias de seu avô, Abe Portman, sobre um orfanato único em que o próprio cresceu durante a segunda guerra mundial. Nesse casarão, no meio de uma ilha do País de Gales, moravam crianças que possuíam habilidades especiais, peculiares, sobre a proteção de uma senhorita Peregrine. De uma garota que flutua até um menino que possui um enxame de abelhas dentro do corpo, Jacob se fascinava com cada história, e para comprovar todas elas, seu avô mantinha dentro de uma caixa de sapato, debaixo da cama, fotos desbotadas da maioria desses seres. Com o passar dos anos, no entanto, Jacob começou a desconfiar desse mundo mágico, conforme se adequava à realidade sem graça de seu cotidiano, e enterra de vez os “contos de fadas” de seu avô.
Em um entardecer, porém, depois de receber um telefonema desesperado de seu avô, Jacob vai até sua casa em um condômino no subúrbio da cidade, para encontrá-lo no meio de um matagal nos fundos de seu terreno, ensanguentado e com um fio de vida. Desesperado, o menino procura em volta o autor de tamanha atrocidade, para se deparar com uma criatura medonha e disforme, no meio da escuridão.
A partir daí seguimos Jacob em um enorme tormento psicológico regado por pesadelos, angústias, frustrações e idas ao psiquiatra. Até que, em seu aniversário, recebe das mãos de sua tia um presente deixado por seu avô, uma pista de suas últimas palavras que o levará à por a prova a veracidade de todas as histórias ouvidas em sua infância, e conhecer as crianças peculiares do orfanato da srta. Peregrine.
Ramson Riggs escreve uma história cheia de mistérios com uma trama espetacular, sua narrativa é quase cinematográfica (motivo que possivelmente levou Tim Burton a dirigir o filme homônimo, estreado no último dia 29) e o mundo criado para abrigar as crianças peculiares é, de fato, peculiar. Embora a divisão dos capítulos não seja tão criteriosa, nos primeiros momentos, após a morte do avô Portman, o autor explora bem a temática de uma realidade traumática, vivido por aqueles que enfrentaram a segunda guerra mundial, e que para superar essa dor, criaram uma outra realidade, motivo pelo qual os pais de Jacob não acreditavam nas histórias do orfanato. Bem como o trauma da perda de um ente querido, adicionado ao choque de ser o único a ver o verdadeiro assassino de seu avô. Em determinadas partes do livro, após esse primeiro devaneio entre o real e o imaginário, o leitor pode se perguntar se aquilo que Jacob está vivendo é mesmo real, ou parte de suas fantasias para superar os eventos que presenciou.
Outro ponto interessante na narrativa de Riggs é o que o teórico suíço Tzvetan Todorov chama de maravilhoso fantástico, ou seja, o sobrenatural “[...] explicado de uma maneira racional mas a partir de leis que a ciência contemporânea não reconhece.”(Todorov, 2012, p.63). Assim, a existência das crianças peculiares é explicada pela própria srta. Peregrine: “A composição da espécie humana é infinitamente mais diversa do que a maioria dos humanos suspeita [...]. Para começar, há uma dicotomia simples: existem os coerlfolc, a grande massa de pessoas comuns que formam a numerosa humanidade, e há o ramo oculto, os cripto-sapiens, se preferir, que são chamados de syndrigast, ou 'espírito peculiar' [...]. Como sem dúvida você já deve ter percebido, aqui nós somos desse último tipo” (Riggs, 2008, p.144). Introduzindo ao leitor a verossimilhança narrativa, ou seja, uma realidade plausível segundo as leis criadas por Riggs.
Embora a obra possa ser considerada um Young Adult, o autor parece se confundir em manter uma consistência estilística, vide alguns palavrões densos proferidos pelas personagens em comparação a um clímax fraco um tanto desorientado. O não aprofundamento das relações de Jacob com sua vida nos EUA torne talvez um pouco óbvio o desfecho da trama. Da mesma forma, as crianças peculiares, que possuem um potencial muito grande, poderiam ter sido mais desenvolvidas. Fica então em aberto um gancho narrativo que será desenvolvido nos próximos dois livros da trilogia, com mais mistérios e peculiaridades.
Unknown / Perfil
Associação civil sem fins lucrativos formada por alunos do Instituto de Estudos da Linguagem, a Odisseia foi idealizada com o objetivo de preparar seus integrantes para o mercado de trabalho. Seus serviços oferecidos incluem coaching, revisão e análise crítica/parecer crítico; tópicos que estão, de certa forma, inseridos na criação dos cursos de Estudos Literários, Letras e Linguística. Além de oferecer esses serviços, a empresa busca estabelecer um vínculo maior entre os estudantes do Instituto de Estudos de Linguagem da UNICAMP (IEL) e o mercado editorial.
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