terça-feira, 20 de setembro de 2016
Pesquisador descobre livro de Machado de Assis ignorado por um século e meio e nunca publicado
para O Estado de S. Paulo
Crisálidas (1864) foi o primeiro livro de poemas de Machado de
Assis (1839-1908) – mas quase não foi. Duas notas publicadas no Correio
Mercantil em 1858 e em 1860 e um anúncio veiculado no Correio da Tarde também em 1860 mostram que ele se preparava para lançar o Livro dos Vinte Anos.
Essa informação, descoberta agora pelo professor Wilton Marques, da
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e divulgada com
exclusividade para o Estado, nunca foi incluída em suas biografias, e especialistas contemporâneos dizem nunca ter ouvido falar no tal livro de poemas.
Tudo começou com uma outra descoberta - a do poema O Grito do Ipiranga
que Machado de Assis publicou no Correio Mercantil em 1856. O professor
quis, então, escrever um livro sobre esse texto, mas achou que precisava
ampliar sua pesquisa para dar corpo à obra.
Iniciou, assim, uma investigação sobre a presença de literatos em
jornais. Estava debruçado sobre os arquivos do Correio Mercantil na
Hemeroteca Digital Brasileira, lendo os textos de Macedo, Gonçalves
Dias, Manuel Antonio de Almeida, José de Alencar e Machado de Assis,
quando se deparou com a seguinte nota na primeira página: “Mais um
volume de versos se anuncia, e podemos já dizer mais um poeta se vai
revelar. Modesto e muito jovem são, além de felizes inspirações,
qualidades bastantes para recomendarem o nome do Sr. Machado de Assis,
autor do livro cuja publicação se nos anuncia”. Machado era, então, um
garoto de 19 anos.
Foto: Reprodução
'Correio Mercantil', 20 de agosto de 1858
Um ano e meio depois sem que nada tivesse ocorrido, outra menção ao
volume, em janeiro de 1860. Agora, com mais detalhes: “Vai publicar-se
uma coleção de versos com o título de Livro dos Vinte Anos. O
autor é um moço que enceta apenas a carreira das letras. Talento viçoso e
original, o Sr. Machado de Assis promete mais um poeta e um prosador
distinto no país. Nas poesias ligeiras ou ensaios de prosa que tem
publicado até hoje, revela o Sr. Assis qualidades notáveis que
recomendam o seu nome. O público receberá sem dúvida o seu livro como
merece o talento do autor, que tem tanto de real como de modesto. Na
atualidade é uma associação rara”.
Foto: Reprodução
'Correio Mercantil', 19 de janeiro de 1860
Lá se vai mais um mês e um anúncio no Correio da Tarde traz novidades mais concretas. Ele diz: Livro dos Vinte Anos
por Machado de Assis. Um volume de 200 a 240 páginas; 2$. Assina-se nas
lojas de costume e na tipografia do Sr. Paula Brito, onde é impresso.
Foto: Reprodução
'Correio Mercantil', 19 de janeiro de 1860
E, então, fez-se um silêncio que dura até hoje, 156 anos depois. Por
que o livro nunca foi lançado? O número de assinantes não foi suficiente
para bancar a impressão nesta espécie de crowdfunding do século 19?
Machado não gostou do resultado do trabalho? Brigou com o editor? Por
que nunca se falou nesta obra?
Wilton Marques fica com a hipótese da consciência literária
de Machado e da mudança de interesse. “Tem uma expressão de Jean-Michel
Massa que diz que Machado tinha uma autocrítica vigilante muito forte.
Exigia muito do texto na busca de um comprometimento com o dado
estético, com a formalidade do texto literário. E por isso ele jogava
muita coisa fora”, comenta o professor. Vale lembrar que quando
organizou Poesias Completas (1901) – porque, como disse em
carta ao editor Garnier, queria deixar esta obra como sua bagagem
poética –, ele excluiu muitos poemas de outros títulos que ele mesmo
tinha organizado. “Esse exercício de autocrítica é muito forte e mais um
indício de que ele abandonou o livro.”
Fora isso, Marques diz que os poemas do Livro dos Vinte Anos
seriam da fase romântica de Machado – e ele discordava de seus ideais. E
que àquela altura o autor estava totalmente dedicado ao teatro – foi
com peças, aliás, que ele estreou na literatura.
A hipótese de que os poemas do malogrado livro, como o professor escreve no artigo que será publicado na revista Machado em Linha
até dezembro, tenham sido incluídos em títulos posteriores também está
fora de cogitação. Ele lembra que o escritor datava seus textos e em Crisálidas (1864), por exemplo, só um dos poemas é de antes de 1860.
José Luiz Passos, escritor, professor de literatura brasileira da Universidade da Califórnia (Ucla) e autor de Machado de Assis: Romance Entre Pessoas,
não conhecia essa referência, mas imagina que o livro talvez não tenha
valido a pena para Machado, e, por isso, ele teria abortado a
publicação. “Às vezes, ele apostava numa capacidade de produção muito
maior que as condições reais que ele tinha de execução”, comenta
Passos.
Isso, sem contar com o compromisso e a tentativa de agradar –
neste caso, mais tarde – a seu editor Garnier, para quem prometeu, e
nunca entregou, O Manuscrito do Licenciado Gaspar e Histórias de Meia-noite. Passos comenta também sobre um libreto de ópera que ele teria escrito, mas que nunca apareceu.
“Esses livros não realizados são mais um exemplo da capacidade de
produção imaginativa dele, dessa ambição de colocar para fora, de
publicar cada vez mais”, diz. E como boa parte de sua produção era em
jornais, o professor acredita que ainda há muito a ser revelado. “A cada
vez que se organiza uma coletânea dos contos de Machado, sempre aparece
algum texto – principalmente porque ele também escrevia sob mais de 20
pseudônimos”, explica.
Passos, no entanto, não conhece tantos anúncios da natureza dos encontrados por Wilton Marques. “Esse Livro dos Vinte Anos
foi uma surpresa e é mais uma evidência de alguém que está tentando
tudo – de contratos com editores a colaboração em periódicos.” E Machado
tinha ambição. Segundo o professor, ele queria ser um autor clássico.
“Ele se coloca ao pé dos grandes e não faz literatura de ocasião.” Mais
um motivo para se livrar dos poemas românticos?
O crítico Silviano Santiago, que acaba de entregar o manuscrito de Machado,
romance sobre os últimos quatro anos de vida do escritor, também nunca
ouviu falar do livro. “Mas como Carlos Drummond que não publicou o
manuscrito que enviou em 1925 a Mário de Andrade, e esperou 1930 chegar
para publicar o volume Alguma Poesia, Machado também deve ser
elogiado por não ter tido a coragem de publicar esse livro. Realmente,
ambos os escritores não começam bem em matéria de escrita poética.
Pensando nesse tipo de carreira literária é que talvez se possa entender
melhor a célebre alegoria de Machado, que começa por dizer que “Cada
estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, etc.”, comenta.
Obra rara
Um volume da primeira edição de Crisálidas,
o primeiro livro de poemas de Machado, foi incorporado ao acervo da
Estante Virtual este ano. A relíquia custa R$ 4.748. Há outras 30 obras
raras no portal que reúne sebos de todo o País.
Unknown / Perfil
Associação civil sem fins lucrativos formada por alunos do Instituto de Estudos da Linguagem, a Odisseia foi idealizada com o objetivo de preparar seus integrantes para o mercado de trabalho. Seus serviços oferecidos incluem coaching, revisão e análise crítica/parecer crítico; tópicos que estão, de certa forma, inseridos na criação dos cursos de Estudos Literários, Letras e Linguística. Além de oferecer esses serviços, a empresa busca estabelecer um vínculo maior entre os estudantes do Instituto de Estudos de Linguagem da UNICAMP (IEL) e o mercado editorial.
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