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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Uma relação tão delicada

Unknown

Amistosos no princípio, Drummond e João Cabral de Melo Neto afastaram-se e se atacaram veladamente, reafirmando a tese dos "parricídios" e "fratricídios" literários

Diz secamente quando JCMN lhe manda aquela variação em torno do seu Quadrilha: "Acho que deve continuar". E se pegarmos a correspondência de Cabral com Manuel Bandeira, veremos um contraste. Com Bandeira, pernambucano como Cabral, existe expansão, confraternização, cumplicidade. Bandeira hora nenhuma está traçando o controle de seu território, como acontece com Drummond, sempre cioso, defendido e estranho no seu canto "gauche". E essa diferença se torna ainda mais interessante se considerarmos que a poesia de Bandeira é bem diferente da de Drummond. Ao contrário, tem muitas das características que desagradariam à estética severina de Cabral.

Por isso, é de se notar que nas últimas cartas trocadas entre Cabral e Drummond, embora reafirmem a mútua admiração e a amizade, há também sempre uma necessidade de explicação de por que não se escrevem. Drummond se confessa "aparentemente infiel amigo" e tenta se desculpar: "sabe que em matéria de correspondência eu sou como a mula velha e incorrigível". E Cabral responde: "v. não vai pensar que o meu silêncio é represália ao seu". Neste caso, a falta fala mais do que a presença.

O fato é que se nunca houve uma real proximidade, aos poucos se afastaram mais. Há uma divergência crescente entre ambos (apesar de toda a cortesia) que vai se tornando mais nítida entre 1947 e 1952.

Um pai complicado

A conferência Poesia e Composição: A Inspiração e o Trabalho em Arte, que Cabral pronunciou em 1952 na Biblioteca Pública de São Paulo, vai distanciá-lo do modelo drummoniano. No seu subtexto já se nota algo edipianamente familiar - a negação do pai, a tentativa de criar outra família. No seu texto, Cabral não se refere a nenhum poeta brasileiro. E a ausência de nomes nacionais presentifica outra estratégia de escrita. Ele está "denegando" as marcas e origens e se preparando para fundar um espaço próprio. Ou como ele mesmo vai dizer naquela conferência: "o que se espera do poeta hoje, é que se pareça a ninguém, que contribua com uma expressão pessoal". Portanto, ele se dispõe a se recriar e criar uma linhagem.

Tomemos um texto pouco conhecido de Drummond, mesmo porque ele o publicou com pseudônimo em 1948 quando Cabral estava já tomando um rumo divergente do seu na poesia. Drummond amava esses disfarces. Desde os primeiros escritos no Diário de Minas, na década de 20 do século passado ele praticava esse revezamento de máscaras literárias. Fernando Py, aliás, já estudou com acuidade como Drummond, numa versão mineira/brasileira de Fernando Pessoa, usou cerca de 60 pseudônimos.

Pois bem. A máscara literária que Drummond vai usar para externar o que pensa sobre um livro de Cabral é Policarpo Quaresma Neto, e foi publicada em 1948. Aí, sob o sintomático pseudônimo extraído do personagem de Lima Barreto, percebem-se as intenções do oculto signatário. Drummond diz realmente o que pensa sobre a poesia de JCMN, vendo seus defeitos e virtudes em Um Poeta Hermético:

"Dando ao seu caderno de poemas o título rebarbativo de Psicologia da Composição (O Livro Inconsútil, Barcelona, 1947), o sr. João Cabral de Melo Neto afasta desde logo, dentre os leitores, aqueles que amam a poesia em estado de facilidade. Para os que restarem, o livro todo será íntimo, confessional. O objetivo do poeta é acertar um: ‘tiro nas lebres de vidro/ do invisível’. Ou então: ‘cultivar o deserto/como um pomar às avessas’.


Excluído todo elemento sensual, proscrita a emotividade romântica, resta dominar ‘a fria natureza da palavra escrita’ - e o sr. Cabral o consegue as mais das vezes.

Esse jogo, com seus encantos, tem seus riscos. A mineralidade específica dessa poesia ataca o autor, em certos passos, e ei-lo rígido, incomunicável. Repelindo as pompas e louçainhas do adjetivo, atém-se ao recurso elementar da comparação (há uma floresta de como, no livro). E desinteressado de música, tomba na cacofonia. Mas seus achados não lembram os de nenhum poeta brasileiro e são de uma potência extraordinária: ‘nuvens/ trazendo no bojo/ as gordas estações’. Eu este:
‘o sol do deserto/não choca os velhos/ovos do mistério’.

Na Fábula de Anfion, inspira-se menos no mito original grego do que na sua interpretação por Valéry. Sem embargo, o tema lhe é próprio, constituindo variação do seu anterior Engenheiro.
O pobre hermetismo de nossos velhos e jovens poetas esfarinha-se diante do mistério que reside no âmago dessa difícil e admirável poesia. Edição raríssima: está à disposição do seu dono, na redação deste suplemento, o exemplar com dedicatória, que tivemos a fortuna de achar num lotação de Copacabana."

É um texto crítico. Sincero. Cruel. E é, ao que parece, do mesmo ano em que Cabral diz a Bandeira que Drummond sumiu, não escreve e que só pode ser intriga de alguém. A radiografia da poética cabralina é perfeita. Até nos elogios. Mas revela que é "rebarbativo", que usa muito "como", ressalta a frieza, a incomunicabilidade, localiza as fontes de Cabral e comete aquela maldade final ao dizer que o livro, com dedicatória, foi achado "num lotação de Copacabana".

A crônica literária da época não conseguiu revelar quem era esse Policarpo. Num texto de 1948, que parece ter sido escrito pelo próprio Drummond, diz-se que Policarpo se retirou para Buenos Aires, mas voltará a qualquer hora. E, artimanhosamente, refuta as hipóteses de que o autor possa ser Brito Broca, o próprio Drummond, Raimundo Magalhães Jr. e Marques Rebelo. Observe-se: ao inscrever-se entre os suspeitos, CDA talvez pensasse apagar as pistas.

Duas famílias em conflito

Por outro lado, seria de se esperar que mais cedo ou mais tarde, Cabral daria algum troco ou aprofundaria mais o distanciamento poético entre ambos. Em uma entrevista concedida "familiarmente" à sua esposa Marly de Oliveira à revista Diálogo, Cabral diz: "O Carlos Drummond de Andrade, no princípio de sua carreira literária, a gente sentia que ele tinha uma falta de ser. Depois, ele leu Neruda e desbocou-se, por assim dizer, soltou a língua". Esse "desbocou-se" evidentemente não é elogio.

Essa questão aparece teorizada na conferência que Cabral fez em 1952, quando disse que há "duas famílias" de poetas: os que, como ele, se consagram ao "trabalho" e os outros, que exprimem "emoções". Essa divisão dos poetas em duas famílias, sobre ser perigosa teoricamente, é redutora de algo bem complexo na história da literatura. Não existem apenas duas famílias que se opõem. Mais que famílias, há clãs e dinastias, isto sem falar nos filhos renegados, nos filhos pródigos e nos agregados.

Entre os poetas, a luta pela "herança" dos "pais e avós" é ferrenha. Alguns autores têm um comportamento que interessaria aos estudos antropológicos: carregam totemicamente o crânio ou o osso de um poeta antepassado como relíquia a ser reverenciada. Como mostrou Lipking ao analisar como se constituem as famílias poéticas, muitos voltam à sepultura de seus preferidos não só para reverenciá-los, mas para se alimentar canibalmente de suas obras. A teoria do canibalismo usada devidamente, nos levaria a constatar como se dá a "devoração" e/ou "exumacão" artística.
Na verdade, mais do que famílias, há tribos literárias, com tudo o que isto implica de violência e luta pela sobrevivência. E quando um dia se aplicar devidamente modelos da vida animal para se entender os clãs artísticos, veremos que há "comensais" e "predadores" na sistema artístico. Como lembra Lipking, no sistema literário (antropologicamente) existem três momentos na metamorfose do poeta e sua obra: o momento da iniciação, o momento da maturidade e o momento em que deixa o seu legado à nova geração.

Por isto, pode-se dizer que há conflitos parricidas e fraticidas dentro da literatura. Numa conferência apresentada em Rapallo, Italia (2004)(Competitividade e Agressividade), tratei deste tema desconstruindo a falsa versão de que artistas são uma confraria de anjos. Há no espaço artístico, aquilo que há mais de quarenta anos tenho chamado de "luta pelo poder literário". Uma das manifestações mais sutis e alcandoradas disto está numa reminiscência monárquica ( e redutora), que faz com que se pense que um poeta esteja passando o cetro a um outro. Lembrança seródia, talvez, da síndrome do "príncipe dos poetas" ou do "poeta da corte" como era antigamente. Deve ser por isto que alguns ingenuamente postularam para Cabral o lugar que era ocupado por seu "pai literário" - Carlos Drummond de Andrade.
Texto originalmente publicado por Affonso Romano de Sant'anna no Estadão (Fonte).

terça-feira, 29 de novembro de 2016

J.K. Rowling presenteia menina síria com livros de 'Harry Potter'

Unknown

J.K. Rowling arrasou mais uma vez. Nesta segunda-feira, dia 21, a escritora inglesa resolveu presentear uma menina síria, chamada Bana Alabed, de 7 anos, com todos os livros de Harry Potter. A criança mora em Aleppo, na Síria, cidade que vive as consequências da guerra civil do país há anos.

No Twitter, a mãe de Bana escreveu uma mensagem à autora. "Olá, J.K. Rowling. Eu assisti Harry Potter. Bana gostaria de ler os livros". Ao ler o pedido, a escritora enviou a versão on-line dos livros da série para a garota.

A pequena, então, escreveu um post de agradecimento: "Minha amiga J.K. Rowling, como você está? Obrigada pelos livros, amo você". "Amo você também, Bana! Tenho pensado em você, mantenha-se segura", respondeu Rowling.

Veja os posts abaixo:

Texto originalmente publicado no Catraca Livre (Fonte)

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Lima Barreto, escritor negro e pobre, será homenageado na Flip 2017

Unknown

      Autor de ‘O triste fim de Policarpo Quaresma’ e de outras obras de verve social norteia a programação

A próxima edição da Festa Literária de Paraty, que acontece em meados de 2017, já tem definido seu homenageado: Lima Barreto (1881-1922), nascido no Rio de Janeiro, autor do romance O triste fim de Policarpo Quaresma e de dezenas de obras hoje em domínio público, publicados antes e depois de sua morte. Um dos contos mais importantes da sua carreira é O homem que sabia javanês.

Barreto, conhecido como “o romancista da Primeira República”, instala o debate sobre os negros na literatura com tudo na Flip 2017. Mestiço, filho de uma família pobre, chegou a cursar engenharia, mas tornou-se jornalista. Em seus livros, retratou um olhar crítico sobre as injustiças sociais do Brasil e o preconceito de cor do qual também foi vítima num país que aboliu a escravidão somente em 13 de maio de 1888, o mesmo dia em que Barreto completava 7 anos. 

Com um estilo informal de escrever, foi cronista de costumes do Rio de Janeiro, adotando um texto que contrastava muito com os autores de então. Batalhou sempre por sua inserção no meio literário, chegando a receber uma menção honrosa da Academia Brasileira de Letras. Morreu com 41 anos de idade.
FLIP 2017
A próxima (15ª) edição da Flip já tem data para acontecer: de 26 a 30 de julho. Outra novidade também anunciada é a criação de um programa de patronos para 2017, voltado a pessoas físicas que queiram apoiar a festa e as ações educativas que ocorrem ao redor dela, ao longo do ano. Os benefícios de quem aderir ao programa, segundo os organizadores do evento, são ingressos para mesas e convites para outras atividades fechadas ao público. 
A demanda por uma maior presença de negros na Flip se intensificou bastante nos últimos anos e foi alvo de críticas em relação à programação de 2016 – em que a presença de mulheres foi incrementada, mas a de negros era nula. A escolha de Barreto como homenageado é da nova curadora do evento, a jornalista e historiadora Josélia Aguiar, que defende o jornalista e escritor carioca desde 2013, quando liderou com outros entusiastas de sua obra uma campanha online a favor de Barreto para a homenagem do ano seguinte. Quem vingou na ocasião, no entanto, foi Millôr Fernandes.

“A Flip sempre gosta de surpreender com as suas homenagens, e acho que, um pouco por conta disso, Lima Barreto não foi escolhido até agora, mesmo sendo um nome tão importante. Desta vez, me pareceu que a surpresa seria justamente confirmar essa preferência”, afirma a curadora. Josélia, que estuda a obra de Jorge Amado e lançará em breve uma biografia do escritor baiano pelo selo editorial Três Estrelas, conta que mergulhou na obra de Barreto depois de encontrá-lo em suas pesquisas sobre Amado. “Ele lia muito Lima Barreto nos anos 30 e o considerava ‘o escritor do povo’”.

A indicação, para ela, foi “tranquila e natural”, mas vai além de preferências. “Acho que, em geral, as oportunidades na literatura serão um tema muito debatido na próxima edição. A obra de Lima Barreto surpreende, além de tudo, por ser atual, inventiva e com uma polivalência muito grande”, opina Josélia.

“O ESCRITOR DO POVO”

Afonso Henrique de Lima Barreto, autor dos romances O triste fim de Policarpo Quaresma (1911) e Os Bruzundangas (1922) e dos contos O homem que sabia javanês e Nova Califórnia, foi neto de escravos. Teve acesso à educação de qualidade que recebia a elite branca no Rio de Janeiro à época, porque foi apadrinhado por um influente ministro do império, o Visconde de Ouro Preto. Sua mãe morreu quando ele tinha seis anos, o que intensificou as dificuldades da família para se manter e o lançou cedo ao mundo do trabalho. Tinha problemas de saúde relacionados ao alcoolismo e à depressão, pelos quais chegou a ser internado, e morreu aos 41 anos.

Ficou conhecido, primeiro, por suas intensas colaborações com a imprensa, sempre crítico em relação às desigualdades e à ostentação da elite. Carregou para a literatura essa carga social e se destacou pelo uso de uma linguagem coloquial muito distante do pomposo estilo português que vigorava. Chegou a ser celebrado postumamente, mas em vida sofria preconceitos por ser negro e marginal – por três vezes esboçou uma candidatura à Academia Brasileira de Letras, sem nunca ter sucesso.

Influenciou escritores modernistas, foi resgatado nos anos 50 e se tornou um autor clássico da literatura brasileira, porém “muito citado e pouco lido”, segundo avaliam os estudiosos de sua obra. Em 2016, vários textos seus publicados na imprensa e assinados com pseudônimos foram reunidos no livro Sátiras e outras subversões: textos inéditos, organizado por Felipe Botelho Corrêa para a Companhia da Letras. Com a homenagem na Flip em 2017, outras novidades podem vir por aí.

Texto originalmente publicado por Camila Moraes no El País (Fonte)

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Tradutora de 'Grande Sertão: Veredas' para o inglês consegue apoio financeiro

Unknown
Australiana. Traduções de obras de Clarice, Tezza e outros

Alison Entrekin estava em busca de financiamento para seu ambicioso projeto de verter a obra-prima de Guimarães Rosa

A saga da tradutora Alison Entrekin – australiana radicada em Santos – para verter ao inglês e publicar Grande Sertão: Veredas atinge agora um novo patamar: o Itaú Cultural vai anunciar o patrocínio do projeto por três anos. Uma das tradutoras mais populares quando o assunto é literatura brasileira contemporânea em inglês – ela já trabalhou com obras de Paulo Lins, Cristovão Tezza e Clarice Lispector –, ela estava há mais de um ano buscando apoio financeiro para a empreitada, nada fácil levando em conta a densidade e a riqueza do texto. 

Duas editoras já manifestaram interesse: a Alfred A. Knopf, de Nova York (que publicou uma contestada tradução do livro, em 1963), e a Harvill Secker, de Londres, do grupo Penguin Random House. “Quero que o leitor do inglês seja seduzido pelas palavras e que consiga projetar um livro imaginário, porque a transposição regional é uma das impossibilidades da tradução”, explica Alison – o livro se passa num sertão meio real (entre Minas Gerais e Bahia), meio imaginado. “A salvação da pátria é o neologismo. O brasileiro lê e não sabe bem se as palavras e expressões são coisas reais ou se foram criações. Vou tentar recriar esse enigma em inglês.” 

O anúncio do apoio – que envolve outras contrapartidas da tradutora, como atividades e outros conteúdos – será feito nesta quarta-feira, 9, na primeira mesa do seminário Conexões – que ocorre este ano ao mesmo tempo em que o Encontros de Interrogação. Os dois eventos, que vão até o dia 11 na sede do Itaú Cultural (Av. Paulista, 149), têm mesas e painéis que vão discutir literatura contemporânea, suas relações com a política e com o momento atual do Brasil, tradução e estética (veja a programação abaixo). Alison divulgou em julho um primeiro estudo da tradução – que ela assegura que ainda vai ser modificado.

UM ENSAIO DA TRADUÇÃO

O original 
"- Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser - se viu -; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram - era o demo. Povo prascóvio. Mataram." 

Em inglês 
"- Nonought. Shots you heard weren’t a shootout, God be. I was training sights on trees in the backyard, at the bottom of the creek. Keeps my aim good. Do it every day, I enjoy it; have since the tendrest age. Anyhow, folks came a calling. Bout a calf: white one, strayling, eyes like no thing ever seen and a dog’s mask. They told me; I didn’t want to see. Seems it was defective from birth, lips curled back, and looked to be laughing, person-like. Human face, hound face: they decided-it was the devil. Oafenine bunch. They killed it."

Texto originalmente publicado por Guilherme Sobota no Estado de São Paulo (Fonte)

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Os prêmios e o feijão com arroz literário

Unknown
(Fonte)

Na ausência de políticas consistentes de leitura no país, quem afinal lê os nossos escritores premiados?


Na última cerimônia de entrega do Prêmio São Paulo de Literatura, o escritor Marcelo Maluf, ao ser anunciado vencedor na categoria estreantes acima de 40 anos pelo livro A imensidão íntima dos carneiros, me surpreendeu. Dedicou sua vitória “aos professores, bibliotecários, mediadores de leitura e a todos que trabalham pela construção do pensamento crítico, pela compreensão da diversidade, da liberdade e da sensibilidade, aos seres humanos que tem fome e sede de fabulação e do saber”.

A surpresa veio pelo fato de que o belo romance tem pitadas da – muitas vezes erroneamente criticada – autoficção: o autor mergulhou nos seus antepassados árabes para construir uma bela narrativa lírica. Há quem critique esse recurso de escrita, muitas vezes associando a figura do escritor que usa algum elemento da própria vida como elemento de fabulação a um ególatra inveterado. Não que eles inexistam, pelo contrário. São muitos os casos, na cena cultural e midiática brasileira, de personas literárias cuja imagem fica muito aquém do que escrevem. Mas isso é um debate para outro momento. Ou talvez nem mereça.

O que Maluf trouxe de diferente foi, em plena celebração por um feito à primeira vista individual, ter oferecido a premiação ao coletivo, ao universo fora do umbigo, às figuras invisíveis que contribuem, com todas as dificuldades, para que se forme o leitor literário num país com índices tão vergonhosos.
Quando o vi recebendo a premiação, falando para uma plateia em que o governador Geraldo Alckmin figurava na primeira fila, e que logo em seguida iria anunciar o prêmio principal a Beatriz Bracher, não pude deixar de enxergar como um ato de ousadia e transgressão. Sob os flashes de um dos principais prêmios literários na maior capital do país, o jovem (ou seminovo, como digo sobre nós que beiramos os 40) autor não nos deixou esquecer do que é realmente importante: a leitura e os leitores.

Por um tempo, voltei para pouco mais de um mês, na Bienal do Livro de São Paulo. Participava de um debate sobre a importância dos prêmios literários e a sua participação na formação de leitores. Havia representantes do Jabuti, Oceanos, do próprio Prêmio São Paulo e eu sobre o Prêmio Sesc. Do lado de fora da sala onde falávamos, uma multidão gritava para ouvir e tirar selfies com um youtuber. Por vezes, nosso debate teve de ser interrompido até que o barulho diminuísse. Mas na hora lancei para os colegas de mesa umas perguntas que até agora me instiga: por que há uma distância tão grande entre os dois mundos? Como fazer para que esses jovens interessados pelo objeto livro, que vêm lotando esses eventos de grande porte, possam conhecer os autores que descobrimos e celebramos nos prêmios literários?

Algumas respostas simples poderiam surgir. Inclusive uma primeira mais simples: está bem assim porque se tratam de dois extremos incompatíveis, com a “alta literatura” premiada sendo complexa demais para ser lida pela choldra, que segue asleis do mercado em busca os livros da moda, e no caso a bola da vez são os youtubers. Esse pensamento, além de preconceituoso, seria frívolo demais para quem já lidou tanto com livros de premiados quanto com os jovens que estão lendo mais hoje. Ser um leitor fã de determinado tipo de livro não significa que o indivíduo seja fechado para novas ideias e formatos. Pelo contrário, tenho participado de muitos eventos literários com jovens e o que percebo é um desejo grande por novas leituras. Em muitas ocasiões, basta um papo com grupos de leitores para que nossas certezas sejam revistas e atualizadas.

Outra resposta seria pela aproximação dos autores premiados com o público em bate-papos. Bem, essa etapa é cumprida de certo modo pela maioria dos prêmios. O São Paulo, Oceanos e Sesc promovem encontros dos seus finalistas ou premiados, sendo que o último os leva para diversas atividades literárias em diversos lugares do país. Mas ainda assim isso não significa que os encontros se revertam em leitura efetiva. Em muitos casos o público quer apenas saber sobre a rotina do escritor e seus “processos criativos”, ou apenas tirar fotos. Mas quase não compra os livros.

E também não se deve esperar que os escritores sejam performers do palco. Vale lembrar o caso do escritor Rafael Gallo, que também venceu o Prêmio São Paulo na categoria estreante com menos de 40 anos com o romance Rebentar. Depois de conversar com leitores numa Bienal, recebeu um bilhete no qual era sugerido que fizesse mais stand up, provavelmente porque sua fala não era circense como se esperava.

Daí a importância também dos modelos de divulgação, esse assunto que também é um nó. As editoras investem pouquíssimo para divulgar as obras nacionais que não tenham grande potencial de venda. Há muito vigora uma linha de pensamento segundo a qual o lucro advindo dos best-sellers é que torna viável a publicação dos livros que vendem menos. Essa regra coloca os autores brasileiros num status de resignação cotista, como se fosse um grande favor ter o seu livro publicado. Quando o título é premiado, pode no máximo voltar às livrarias com uma tarja de vencedor, mas por pouco tempo, já que a fila das gôndolas anda rápido e os best-sellers estão esperando.

Por outro lado, não podemos nos esquecer das campanhas de formação de leitores. Ainda que existam muitos projetos de pequeno e alguns de médio porte de norte a sul, não há hoje no país uma grande política de leitura em execução. Educação e leitura são palavras muito bonitas em campanhas políticas, mas remodelar o formato do ensino de literatura e instituir o livro como um bem cultural desejável no âmbito familiar é tarefa para muitos anos. E o resultado, depois de grande investimento e trabalho, começaria a ser percebido em mais tempo do que dura um mandato de governo. Seria fundamental a implantação de política de Estado, que se sustentasse em todos os governos, ou apesar deles.

Com esse quadro, vivemos um boom literário no Brasil, de qualidade e quantidade, cuja explosão tem alcance ainda muito restrito. Num mundo perfeito, os livros vencedores de prêmios literários, pela divulgação que recebem, entrariam rapidamente para as listas de mais vendidos. Pessoas os leriam nos transportes públicos e exemplares permaneceriam nas vitrines das livrarias durante longo período. E não é o “mercado” que vai mudar essa situação.

Por isso vale repetir a dedicatória de Marcelo Maluf. Paralelamente aos grandes prêmios e eventos literários, precisamos olhar seriamente para o trabalho cotidiano da formação de leitores, o feijão com arroz que possa dar sustância na formação de consumidores de cultura livresca. São ações regulares, sistemáticas e pouco visíveis que, aplicadas em escala, podem fazer a necessária ponte entre os grandes livros e os potenciais leitores deles.

Texto originalmente publicado por Henrique Rodrigues no Publishnews (Fonte)

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Dos 113 vencedores do Nobel de Literatura, apenas 14 são mulheres

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Apesar do avanço feminino na sociedade contemporânea, o preconceito persiste em escala globalizada

A escritora Marina Colasanti, indagada se a atenção dada às questões do universo feminino a tornava feminista, apontou a impossibilidade de não se ocupar delas diante do cenário ainda desigual entre homens e mulheres também no campo da literatura. “Ocupo-me dessas questões porque nunca ninguém conseguiu me convencer de que não tenho o mesmo potencial, a mesma força, a mesma grandeza dos homens. E porque sempre achei que devia ter os mesmos direitos”, afirmou. É fato. A produção literária das mulheres ainda não alcançou a mesma visibilidade dos homens – pelo menos é o que indica o Prêmio Nobel de Literatura.

A premiação foi concedida a 113 pessoas. Apenas 14 mulheres a receberam desde 1901, quando foi criada pela Academia Sueca, conforme levantamento do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa), ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A primeira foi a sueca Selma Lagerlöf, em 1909, e a última a bielorrussa Svetlana Alexijevich, em 2015.

Uma das responsáveis pelo estudo, Márcia Rangel, doutoranda em ciência política, explica que, a partir dos dados oficiais dos vencedores, foram feitas categorizações por meio de fotos. Apesar da longevidade da premiação (115 anos), a diversidade de gênero e de raça é pouco expressiva. O perfil predominante é de brancos (94%), homens (88%) e europeus (69%). Mulheres constituem apenas 12% dos premiados, enquanto negros e asiáticos são 3% (cada).

A escritora Maria Esther Maciel, professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), lembra que tanto o Nobel quanto outros prêmios literários não privilegiam as mulheres. A visão de que a literatura é prática masculina ainda persiste no senso comum, apesar de ter crescido a participação feminina em todos os gêneros literários, afirma.

“À mulher é negado esse espaço em decorrência de algo arraigado em nossa cultura”, diz Maria Esther, lembrando que em diferentes momentos a produção das escritoras teve pouca ou quase nenhuma visibilidade.

Várias autoras são valorizadas tardiamente – e até postumamente – em decorrência de movimentos de resgate de sua obra. Exemplo disso é a mineira Maura Lopes Cançado (1929-1993), com a reedição de livro O hospício é deus pela Editora Autêntica. Lançado em 1965, ele voltou às prateleiras cinquenta anos depois. Maria Esther lembra o caso da venezuelana Teresa de la Parra, que escreveu Ifigênia no início do século 20, questionando as estruturas patriarcais. “Essa obra é ícone da literatura feminista latino-americana, mas não teve repercussão nenhuma na Venezuela”, observa.

Para a escritora Letícia Malard, professora emérita da UFMG, desde a criação do Nobel, o número de escritoras centuplicou, reflexo de mudanças socioeconômicas e da escolarização feminina. “Para que as mulheres possam avançar na literatura é preciso que a sociedade avance em outras áreas. Não consigo dissociar as coisas”, observa. O fato de a mulher dar conta de três turnos – trabalho, casa e filhos – reduz o tempo que pode dedicar à escrita. “A que horas ela vai escrever? De onde tirará tempo para se aperfeiçoar?”, questiona.

Na avaliação de Constância Lima Duarte, professora da Faculdade de Letras da UFMG, as mulheres se tornam cada vez mais visíveis no campo literário. “Há apenas um século, a situação era bem diferente. A crítica acolhia com muita reserva os livros assinados por mulheres”, diz. Para ela, o fato de o Nobel ter contemplado poucas autoras revela a persistência da desigualdade de gêneros. “O preconceito arraigado nas mentalidades masculinas se torna visível no corpo de jurados”, diz. Outro ponto desfavorável é o fato de livros de escritoras que não escrevem em inglês terem pouca visibilidade.

A produção das brasileiras é bastante frutífera. Letícia Malard, que já foi jurada do Prêmio Jabuti, destaca nomes de diferentes gerações: Cíntia Moscovich, Maria Valéria Rezende, Lygia Fagundes Telles e Nélida Piñon. Ela chama a atenção para Beatriz Bracher e Maria Adelaide Amaral, na área de dramaturgia, e para jovens que se dedicam à literatura de diversão. “Paula Pimenta sabe escrever para os jovens”, destaca

Texto originalmente publicado por Márcia Maria Cruz (Fonte)
Foto: AFP/Daniel Roland

terça-feira, 25 de outubro de 2016

A verdade sobre o caso Elena Ferrante

Unknown

A revelação de que por trás da autora italiana se escondia a tradutora Anita Raja levanta uma polêmica

O mistério em torno da verdadeira identidade da escritora Elena Ferrante foi desvendado pelo jornalista investigativo Claudio Gatti, em um artigo publicado no Il Sole 24 Ore, Frankfurter Allgemeine Zeitung, The New York Review of Books e no site de notícias francês Mediapart, mas a polêmica só começou.

O vazamento das contas bancárias da editora italiana Edizione e/o e o rastreamento das compras de várias propriedades em Roma e na Toscana levaram Gatti a concluir que, por trás do pseudônimo literário sobre o qual mais se tem sido escrito no século XXI, estava a tradutora Anita Raja, esposa do escritor Domenico Starnone. O velho mantra de “siga o dinheiro” é uma bomba informativa ou uma intrusão inaceitável? A julgar pelo furacão de reações despertado pelo trabalho de Gatti, pode-se dizer ambas as coisas.

Ferrante protegeu sua verdadeira identidade com cuidado e explicou claramente as razões que a levaram a optar pela “ausência, não o anonimato”, afirma em uma conversa por telefone Silvia Querini, diretora literária do grupo editorial Lumen e editora do trabalho de Ferrante na Espanha. “Sua ideia é que o texto é o que importa, e o que o jornalista fez foi fuçar no anonimato, nos nomes. Em vez de investigar a evasão fiscal, tem se dedicado a pesquisar as contas de uma escritora. Para mim, o verdadeiro nome não importa, nem como editora nem como leitora.” E Querini não é a única que pensa assim: milhares de leitores foram às redes sociais lamentar que o trabalho de Gatti não tenha respeitado a vontade de Ferrante, que em entrevistas concedidas por e-mail e na única concedida pessoalmente (para a The Paris Review, conduzida por seus editores, os únicos que conheciam sua verdadeira identidade) explicou cuidadosamente os motivos pelos quais não quis revelar seu verdadeiro nome.
Ferrante protegeu com cuidado sua verdadeira identidade e explicou claramente as razões que a levaram a optar por um pseudônimo
Elena Ferrante começou a publicar suas obras nos anos 90, e, apesar da adaptação de um de seus romances para o cinema, foi apenas com a publicação de A Amiga Genial, o primeiro volume da tetralogia Duas Amigas, que a escritora despontou na arena internacional. E como. A chamada “febre Ferrante” se espalhou pelos Estados Unidos, Reino Unido, França, Espanha... Segundo Gatti, a escritora tem mais de dois milhões de livros vendidos. À medida que o fenômeno de seus livros crescia, a especulação sobre quem era Ferrante se multiplicava, e a verdade é que os nomes de Starnone e Raja foram mencionados vez ou outra como os verdadeiros autores (juntos? só ele? ela?) por trás das obras de ficção. Starnone sempre negou os rumores.

O esforço para desvendar o “mistério Ferrante” fez até com que a Universidade La Sapienza de Roma comparasse livros de vários autores italianos com as obras de Ferrante, e o algoritmo destacou a semelhança com o trabalho de Starnone. O fato de que a esposa do escritor napolitano trabalhava como tradutora para a mesma editora de Ferrante desde os anos noventa aumentava as suspeitas. Os rumores chegaram ao ponto de defender que, por trás de cada livro de Ferrante, havia um escritor diferente. Ela então disse: “Evidentemente, em um mundo onde a educação filológica praticamente desapareceu, onde críticos não estão atentos ao estilo, a decisão de não estar presente como autor gera más intenções e esse tipo de fantasias”.
Os nomes de Domenico Starnone e de sua esposa Anita Raja foram mencionados vez ou outra como os verdadeiros autores
Diante da avalanche de críticas contra seu trabalho, o jornalista Gatti se defendeu nesta segunda-feira em uma entrevista à BBC. “É uma figura pública, já vendeu milhões de livros e os leitores têm o direito de saber algo sobre a pessoa que os escreveu”, declarou à emissora. As explicações dadas pela própria Ferrante não foram suficientes? Em um comunicado publicado em La Republica, seus editores exigiam: “Chega de assediá-la, não é uma criminosa”.

Em seu artigo, Gatti já justificava sua investigação referindo-se ao livro Frantumaglia. Nesse volume (publicado em italiano em 2003 e ampliado agora para uma nova edição a ser lançada nos EUA, em novembro, e na Espanha, em outubro de 2017), Ferrante se apresenta, fornece alguns detalhes biográficos e expõe suas ideias sobre a literatura e o processo criação. A nova edição ampliada é completada com as entrevistas que ela concedeu nos últimos anos (incluindo a única publicada em um veículo de língua espanhola, pelo EL PAÍS). Gatti escreve em sua reportagem: “Longe de ser a filha da costureira napolitana que descreve em Frantumaglia, os detalhes de transações imobiliárias e as demonstrações financeiras apontam para Anita Raja, uma tradutora que vive em Roma, cuja mãe de origem alemã escapou do Holocausto e se casou mais tarde com um magistrado italiano”. Isso justifica passar por cima da vontade da escritora? “Esse é o scoop [furo jornalístico] de um jornalista que não está interessado em literatura. Quem é Elena Ferrante não é importante, e sim seus livros, como não é importante quem é Thomas Pynchon, e sim seus romances”, argumenta em uma conversa telefônica o escritor Nicola Lagiola, vencedor do Prêmio Strega em 2015, e autor de uma das poucas entrevistas por e-mail concedidas por Ferrante. “Um escritor tem o direito de dizer coisas que não são verdade, não é um político. Italo Calvino contava uma mentira sobre sua vida em cada entrevista que concedia, porque se divertia. A literatura é ficção.”

Texto originalmente publicado por Andrea Aguilar no El País (Fonte).

terça-feira, 18 de outubro de 2016

A luta diária das mulheres cientistas

Unknown
       Discriminação, injustiça, assédio sexual — não é fácil ser mulher na ciência. Elas precisam ser muito mais produtivas do que os homens para chegar lá, mas não desistem fácil.

       Desde pequena, Luana* sonhava estudar astronomia enquanto observava o céu estrelado de sua cidade, no interior da Bahia. Crescida, formou-se em física e foi atrás de um mestrado em Natal, no Rio Grande do Norte. Em busca de um orientador, procurou o coordenador do curso, Jonas,* um astrônomo. Na mesma hora, foi convidada por ele para participar de seu grupo de pesquisa. No auge de seus 23 anos, Luana pulou de alegria. O professor prontamente lhe ofereceu uma sala ao lado da sua no prédio dos docentes, onde os alunos eram proibidos de trabalhar, e quis instalar câmeras para que os dois ficassem mais próximos. Ligava nos finais de semana para saber o que ela estava fazendo. Ela saía para jantar com o professor e outros estudantes, e durante os encontros, os assuntos eram todos de cunho sexual. Certa vez, ao sair de um restaurante, Jonas disse que deixaria Lua­na em casa e abraçou seu quadril. Ela fugiu de todas as investidas, e com o passar dos meses começou a namorar um rapaz de outra área da pós-graduação. Quando o orientador soube do namoro, Luana passou a ser excluída de reuniões e seu nome foi retirado de apresentações nacionais de artigos. Um dia, ao chegar em sua sala, ela encontrou a mesa vazia. O computador havia sumido. Foi então que ela descobriu outros quatro casos de abuso envolvendo o mesmo professor — incluindo uma aluna da iniciação científica que perdeu a bolsa ao recusar uma investida — e o processou por assédio sexual. Todo o departamento e a própria universidade acobertaram o caso. E o orientador ainda processou Luana por assédio, alegando que ela usava roupas provocantes. Luana desenvolveu síndrome do pânico e transtorno obsessivo-compulsivo. Não conseguia dar três passos sem voltar para ver se suas coisas estavam onde havia deixado. Tinha crises toda vez que alguém tocava seu braço. Mas juntou forças para se mudar e recomeçar o mestrado do zero. Hoje, ela é professora de astrofísica em uma universidade no sul do país.
       A história de Luana é mais uma entre tantas de mulheres que ousaram entrar em áreas da ciência dominadas por homens e acabaram sofrendo abuso moral, assédio e outros tipos de opressão. Há algo de podre na ciência brasileira que exclui sistematicamente as mulheres da produção acadêmica. Uma pesquisa realizada com exclusividade por GALILEU aponta que, nas maiores universidades do Brasil, o número de alunas na graduação é maior que o número de mulheres no corpo docente — o que sugere que essas alunas desistem em algum ponto entre a graduação e o doutorado. Na área de biologia, elas representam 61% dos alunos e 44% do total de docentes. Na física, são 21% dos estudantes e 16% dos professores, e na química são 56% dos alunos e apenas 37% dos docentes.

       Segundo Márcia Barbosa, professora de física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do grupo de gênero da Sociedade Brasileira de Física, a porcentagem de mulheres nos grupos de pesquisa é ainda menor que entre os docentes, e na física não chega a 5%. “Uma coisa é dar aula, mas existe também a carreira de pesquisador, que recebe bolsas de pesquisa e não é avaliado como professor. É uma posição de poder, porque você pede financiamento para alunos, viagens, projetos. A diferença entre o número de mulheres que começam os cursos e o das que de fato alcançam o topo da carreira é enorme”, diz. Por que essas cientistas abrem mão da carreira? Há vários motivos, e o assédio sexual é apenas o mais grave deles.

       Até os anos 1960, a carreira acadêmica era muito fechada no Brasil. O diploma das escolas que as mulheres frequentavam — quando tinham permissão para isso — não dava acesso ao ensino superior. Com a equalização dos diplomas de ensino médio a partir de então, há uma abertura maior para as mulheres, mas elas entram nas universidades em um contexto no qual as contratações acontecem com base em indicações (não existiam concursos institucionais como atual­mente). A década de 1960 é marcada pelo surgimento de várias universidades que hoje são consideradas importantes, mas que na época não tinham prestígio e precisavam de professores com urgência. Muitas mulheres viraram professoras universitárias dessa forma, já que os homens não tinham interesse em competir pelas vagas. “As mulheres entraram nas universidades muito depois dos homens. Há um longo caminho a ser trilhado de modo a colocarmos os valores, a maneira de ser, a disciplina que aprendemos desde crianças como valores positivos dentro da carreira”, afirma Márcia.
“Vinte anos atrás, estava em um evento e um cientista estrangeiro da mesma área, mais velho e mais importante, se interessou por mim. Eu não quis nada com ele, e a partir de então essa pessoa tentou bloquear minha carreira durante dez anos, em vários comitês e nas revistas científicas que editava. Há, na verdade, muito mais pessoas que apreciam meu trabalho do que o contrário, e essas pessoas, ao mesmo tempo que denunciaram o que estava ocorrendo, me ajudaram a contornar o problema. Ele não conseguiu me atingir."
Marília*, 55 anos, Física

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

       Um menino pula em poças de lama, brinca com insetos, desmonta baterias e enfia a mão em uma fruta para ver como é por dentro, tudo sob o olhar orgulhoso dos pais. A irmã da mesma idade tenta fazer igual e rapidamente ouve advertências: “Não vá sujar seu vestido”, “Isso não é brincadeira para meninas”. É exatamente aí que começa a diferença entre o número de homens e o de mulheres cientistas. Para as pequenas, o explorar, que está diretamente ligado à ciência, é terreno proibido.

       A barreira seguinte aparece na escola. Um estudo divulgado recentemente pelo instituto de pesquisa norte-americano National Bureau of Economic Research indicou que professores de matemática dão notas maiores para meninas quando não sabem de quem são as provas que estão corrigindo. Estudantes do sétimo ano até o final do ensino médio fizeram duas provas e assinaram seus nomes em apenas uma delas. Na anônima, as garotas tiraram notas melhores. Na identificada ocorreu o contrário. A conclusão é que os professores tendem a subestimar as habilidades das meninas em matemática e superestimar as dos meninos. “Elas são tão boas quanto os homens em áreas científicas. Um estudo que fizemos com o ensino médio dois anos atrás mostrou que, em média, as meninas são melhores que os meninos em matérias como matemática e física. Então por que existem tão poucas cientistas mulheres?”, pergunta Sara Ravella, que ocupou até junho o cargo de vice-presidente de comunicação e sustentabilidade na L’Oréal e foi uma das responsáveis pelo prêmio Para Mulheres na Ciência, que incentiva as atividades de pesquisadoras ao redor do mundo.

       Conversando com cientistas, Sara descobriu que muitas delas decidem interromper ou abandonar a carreira quando chegam ao doutorado para casar e ter filhos. É que a gestação e o nascimento de um ser humano não são levados em conta no processo de concessão de bolsas. Se a mulher publicou menos arti­gos que um colega do sexo masculino durante um ano porque teve um filho, ela corre o risco de perder a bolsa e é jul­gada como se gerar uma vida não influenciasse seu trabalho. Somente em 2013 as bolsistas do CNPq ganharam o direito a um ano adicional no prazo do doutorado.
“Fui fazer mestrado em Manaus, e um professor se apresentou para me orientar e me ofereceu uma vaga disputadíssima em seu escritório de licenciamento ambiental. Combinamos uma entrevista numa segunda de manhã. Chegando lá, conversamos por alguns minutos, e eu lhe entreguei meu currículo lattes impresso. Ele me olhou de cima e disparou: ‘Vou ser sincero contigo. Eu gostei de você. Gostei muito de você. Quero te oferecer a vaga no mestrado e o emprego. Tenho 60 alunas que morreriam por essa vaga, para estar no seu lugar. Mas eu quero você. Quero você como minha amante. Fixa’. Tentei juntar os pedaços da minha cara no chão. Disse que ele tinha problemas sérios se achava que poderia comprar as pessoas com falsas promessas de emprego, e saí de lá o mais rápido que pude, antes que as lágrimas rolassem. Fiquei traumatizada, depois daquilo não tive mais vontade de correr atrás de um futuro científico. Acabei indo para o mercado de trabalho."
Carla*, 34 anos, oceanógrafa

NADA CIENTÍFICOS

       As mulheres que superam essas barreiras e permanecem na ciência vão continuar lidando com os estereótipos de gênero. Márcia conhece bem essa realidade. Certa vez, num seminário sobre física em Santa Barbara, nos Estados Unidos, ela entrou numa discussão com outros colegas e seu ponto foi o mais bem-aceito pelo grupo. Ao terminar, um homem que havia perdido a discussão lhe disse, diante de todos: “Não consegui argumentar direito porque seu perfume estava me atrapalhando”. A física gaúcha rebateu dizendo que funciona com neurônios, não com hormônios, mas uma outra mulher poderia ter se deixado abalar. Em outra ocasião, Márcia adentrou a sala onde acontecia uma reunião de um comitê internacional de física. Um dos pesquisadores lhe pediu um café, achando que fosse uma secretária — ela era a única mulher no encontro. “Se tivesse entrado um senhor de cabelos brancos, caucasiano, mais dentro do estereótipo, o pesquisador não teria feito esse pedido”, diz.

       O pior é que a responsabilidade pela discriminação acaba muitas vezes recaindo sobre as próprias mulheres. Como no caso do cientista britânico Tim Hunt, premiado com o Nobel, que disse num evento que homens e mulheres deveriam trabalhar em laboratórios separados porque elas se apaixonam por eles e, quando são criticadas, choram. “Na maior parte dos casos, todas as questões femininas, que são diferentes das questões que os homens enfrentam, são consideradas fraquezas. Muitas mulheres choram quando confrontadas ou quando os homens gritam. Por que gritar é melhor que chorar? São instrumentos de negociação”, afirma Márcia.

       Meg Urry, diretora do centro de astronomia e astrofísica da Universidade Yale, disse que vê muitas mulheres deixando a física não por serem menos talentosas, mas pelo desânimo resultante de sentirem-se “menosprezadas e desconfortáveis e de encontrar barreiras no caminho para o sucesso”. Isso é comprovado cientificamente: um estudo de Yale apontou que físicos, químicos e biólogos tendem a ver os homens de maneira mais favorável em detrimento das mulheres quando ambos têm as mesmas qualificações. Outra pesquisa, publicada na revista norte-americana Nature, mostrou que as mulheres que se candidatam a bolsas precisam ser 2,5 vezes mais produtivas que os homens para serem consideradas igualmente competentes.

       Só o  fato de estar num ambiente onde não há outras mulheres já traz a sensação de não pertencimento, que pode ser aquele empurrãozinho para a desistência. “Muitas mulheres cientistas vão para a área de exatas e são tratadas como impostoras, como se aquele não fosse o lugar delas. Você entra numa sala onde é a única mulher e pensa: ‘O que estou fazendo aqui? Não é para mim’. Precisamos de projetos que mostrem que lugar de mulher é onde ela quiser”, diz Márcia. A começar pelas adolescentes que gostam das disciplinas de exatas mas acham que ciência é feita por “cientistas malucos” de cabelos espetados. A ciência faz parte do nosso dia a dia e é a única resposta para os grandes desafios que a humanidade enfrenta. O mundo precisa de 100% dos seus talentos, não só dos 50% que sempre estiveram à frente dos laboratórios.

 (Fotos e matéria: Revista Galileu Marcus Penna)
*Os nomes foram alterados a pedido das entrevistadas.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Beatriz Bracher vence o Prêmio São Paulo de Literatura 2016

Unknown

Autora levou R$ 200 mil pelo romance 'Anatomia do paraíso'
Marcelo Maluf e Rafael Gallo ganharam entre os estreantes


A escritora Beatriz Bracher foi anunciada, nesta segunda-feira (10), a vencedora o Prêmio São Paulo de Literatura 2016. Seu livro "Anatomia do paraíso" (Editora 34) levou na categoria Melhor Livro de Romance do Ano. Pela conquista, a autora levou R$ 200 mil. A cerimônia de entrega aconteceu na Biblioteca do Parque Villa-Lobos, em São Paulo.

Em nota, o júri classificou a obra ganhadora como um "livro intenso, com personalidade desde a primeira página, inteligente e provocador, escrito em linguagem bela e refinada, com descrições precisas, visuais, associadas à construção da tensão".

Os outros dois premiados da noite foram Marcelo Maluf, com "A imensidão íntima dos carneiros" (Editora Reformatório), eleito na categoria Melhor Livro de Romance do Ano – Autor Estreante com mais de 40 anos, e Rafael Gallo, com "Rebentar" (Record), eleito na categoria Melhor Livro de Romance do Ano – Autor Estreante com menos de 40 anos. Os dois levaram R$ 100 mil.

Sobre a obra de Maluf, o júri declarou: "Romance ao mesmo tempo delicado, sobretudo na linguagem, e forte, na idéia de que toda tragédia perpetua, ainda que de forma não aparente. O autor bebe com felicidade incomum na tradição da narrativa e das fábulas para dar conta de uma trama que se passa em tempos e realidade tão distante".

Já sobre a obra de Gallo, os jurados disseram: "Às vezes, a condução do enredo nos dá a impressão de que o autor vai escolher alguma saída redentora, mas ele não faz isso e sustenta de modo vigoroso, por quase 400 páginas, essa história de um aprendizado impossível".

Maior premiação do país em valor

Inspirado no Man Booker, principal distinção da literatura britânica, e criado em 2008, o Prêmio SP de Literatura é o maior do país em valor individual. A disputa é promovida pelo Governo do Estado de São Paulo.

Além dos R$ 200 mil, Beatriz Bracher ganhou um convite para participar de um debate sobre literatura brasileira na Feira Internacional do Livro de Guadalajara, no México, um dos principais eventos do mundo no setor.

A viagem é patrocinada pela Embaixada do México no Brasil e pelo Consulado do México em São Paulo, em parceria com a Secretaria da Cultura do Estado.

Regras

Em 2016, foram inscritos ao todo 175 livros no Prêmio São Paulo de Literatura: 79 na categoria livro do ano, 52 para estreante com mais de 40 anos e 44 para estreante com menos de 40 anos.

O regulamento exigia que as obras fossem do gênero romance de ficção, escritas originalmente em português e com primeira edição e comercialização mundial obrigatoriamente no Brasil entre 1º de janeiro de 2015 e 31 de dezembro de 2015.

A regra possibilitou que, pela primeira vez, um livro de autor estrangeiro ficasse entre os finalistas: "Mulheres de cinzas – As areias do imperador" (Companhia das Letras), de Mia Couto, cuja primeira edição circulou no país. Um livro que tivesse sido originalmente escrito em língua portuguesa, mas publicado primeiro Portugal, por exemplo, não poderia concorrer.

Júri e curadoria

O júri final do Prêmio São Paulo de Literatura 2016 foi formado por cinco profissionais do meio literário: Adriano Schwartz, Elisabeth Brait, Estêvão Andozia Azevêdo, Heloisa Beatriz Goulart Jahn e Ronald Polito de Oliveira.

A curadoria ficou sob responsabilidade de Fonseca Ferreira, Pierre André Ruprecht, Samuel de Vasconcelos Titan Junior, Sandra Regina Ferro Espilotro e Sueli Nemen Rocha.

Os finalistas e os vencedores 

Melhor Livro de Romance do Ano de 2015 (R$ 200 mil)
Beatriz Bracher – "Anatomia do paraíso" (Editora 34)
João Almino – "Enigmas da primavera" (Record)
Julián Fúks – "A resistência" (Companhia das Letras)
Marcelo Rubens Paiva – "Ainda estou aqui" (Alfaguara)
Mia Couto – "Mulheres de cinzas – As areias do imperador" (Companhia das Letras)
Nei Lopes – "Rio Negro, 50" (Record)
Noemi Jaffe – "Írisz: As orquídeas" (Companhia das Letras)
Paula Fábrio – "Um dia toparei comigo" (Editora Foz)
Raimundo Carrero – "O senhor agora vai mudar de corpo" (Record)
Santana Filho – "A casa das marionetes" (Editora Reformatório)
                      
Melhor Livro do Ano de Romance – Autor Estreante com mais de 40 anos (R$ 100 mil)
Eda Nagayama – "Desgarrados" (Cosac Naify)
Marcelo Maluf – "A imensidão íntima dos carneiros" (Editora Reformatório)
Robertson Frizero – "Longe das aldeias" (Editora Dublinense)

Melhor Livro do Ano de Romance – Autor Estreante com menos de 40 anos (R$ 100 mil)
Alex Sens – "O frágil toque dos mutilados" (Autêntica)
Isabela Noronha – "Resta um" (Companhia das Letras)
Julia Dantas – "Ruína y leveza "(Não Editora)
Rafael Gallo – "Rebentar" (Record)
Sheyla Smanioto – "Desesterro" (Record)
Tércia Montenegro – "Turismo para cegos" (Companhia das Letras)
Tomas Rosenfeld – "Para não dizer que não falei de Flora" (7 Letras)

Fonte: clique aqui.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A literatura brasileira muito além do futebol e do samba

Unknown

Em meados de julho, todo ano, a linda cidade de Paraty, no estado do Rio de Janeiro, abriga o festival literário mais importante do Brasil. Os casarões de mais de 300 anos da época do comércio do ouro e as ruas de traçado colonial, calçadas de pedras quase assassinas para os tornozelos dos transeuntes, se transformam em uma espécie de radiografia não de todo infiel do panorama do livro brasileiro. É o melhor lugar para tentar descobrir para onde vai a literatura brasileira —se é que vai para algum lugar. Também para saber se os romances e ensaios de hoje ou de depois de amanhã refletem ou refletirão o convulso e depressivo estado que atravessa o país: às portas dos Jogos Olímpicos, com uma presidenta, Dilma Rousseff, afastada de seu cargo por um processo ainda em andamento de impeachment e semi-exilada em seu próprio palácio residencial, e outro presidente em exercício, Michel Temer, à espera de tomar as rédeas do poder de forma definitiva em um mês. Quando a história entra pela porta, a literatura se joga pela janela?

Rodrigo Lacerda (Rio de Janeiro, 1969), editor, historiador e escritor, é um dos romancistas que passeiam por Paraty. É autor, entre outros, de um romance celebrado, Outra vida, no qual relata o desmoronamento de um casamento enquanto espera um ônibus que vai levá-los para fora de São Paulo. Lacerda afirma que o chacoalhada político e social do Brasil “é muito recente para que já apareça nos romances”. Mas acrescenta: “Apesar disso, hoje há um interesse pelos tempos da ditadura, e isso sim se pode aproximar do tema da crise que estamos vivendo, como se se sobrepusessem”. E acrescenta: "Nesta nova queda de autoestima que agora estamos sofrendo", os dois temas se unem na sensação de que estivemos perto de chegar lá, mas que o chão voltou a se abrir e caímos de novo no inferno. O trem passou. Temos que esperar outro. Não tem jeito”.

O escritor acrescenta então outra característica da atual literatura brasileira: “Há alguns anos, uma especialista elaborou um censo dos personagens de ficção e 90% eram homens, universitários, que moravam em grandes cidades (Rio de Janeiro e mais ainda São Paulo) e que tinham problemas típicos dessa classe social. Ou seja: escrevemos sobre nós mesmos”.

Isso é especialmente cruel em um país tão diverso social, racial, geográfica e até climaticamente como o Brasil: uma geografia cruzada de mundos e até de épocas diferentes que se justapõe e se retroalimenta em um território mágico. A vida de um professor da Universidade de São Paulo não tem absolutamente nada a ver com a de um trabalhador sem terra do estado do Maranhão, nem a deste com a de um índio de um dos mil rios amazônicos ou com a de um boiadeiro do Sul ou do Oeste do país.

Luiz Ruffato, de 55 anos, escritor e articulista na imprensa, autor, entre outros, de Eles eram muito cavalos, um romance experimental que descreve, em capítulos curtos e eletrizantes, a vida na interminável São Paulo, tem uma explicação triste: “A ficção atual brasileira reflete os problemas, a vida e as preocupações da classe social que teve acesso aos estudos no Brasil. Cada um escreve sobre sua aldeia, sua cidade, seu entorno, e com isso tenta ser universal. Mas no Brasil, no entanto, não há escritores vindos de outro mundo além do nosso e isso diz muito sobre a desigualdade que impera do país”.

Alguma coisa se move, no entanto, em algumas favelas do Rio ou de São Paulo. Incipiente ainda, carente segundo alguns de autêntico fôlego literário, um grupo de escritores nascidos e criados ali começam a publicar e a viajar por aí mostrando sua obra. Um de seus expoentes é Reginaldo Ferreira da Silva, Ferrez, de 40 anos, morador do bairro periférico do Capão Redondo, em São Paulo. Seu último livro é o volume explosivo e combativo de contos Os ricos também morrem, no qual narra as histórias de seus vizinhos. Em uma entrevista ao El País, explicou: “É um livro pensado para ser comentado na rua, para que riam quando comentam. Eu não tenho mais nada além das pessoas lendo minhas histórias e comentando comigo, rindo quando conto para elas. Não são histórias reais, mas o tom e o modo de falar são. São daqui”.

A música como modelo

Há também um elemento que pode intimidar os escritores brasileiros na hora de abordar um tema mais amplo que o de sua própria vida e o dos que rodeiam o escritor: a realidade brasileira costuma com frequência derrotar qualquer um que a enfrente a partir da ficção. Em O dono do morro, um livro sobre a vida do narcotraficante Nem da Rocinha, o jornalista britânico Misha Glenny conta a história, entre outras incríveis, de Chico-Bala, o macaco mascote do líder que passeava vestido de caubói e acabou sequestrado pela política.

Já a blogueira e escritora Julia Wähmann, de 35 anos, cita a votação do impeachment na Câmara como exemplo de algo inimaginável para um escritor de ficção. “A abordagem de conceber em um romance a votação do Congresso que afastou Dilma Rousseff do poder, com os políticos votando pela mãe, pela esposa, pela tia... não ia passar pela cabeça de ninguém”, explica. “Em meu primeiro livro escrevi uma história muito pouco brasileira, centrada na dança contemporânea. Mas, por outro lado, também é a história de uma brasileira que viaja.”

O escritor e professor de literatura Flávio Carneiro, de 54 anos, concorda com essa desvantagem diante da realidade extraordinária de todos os dias no Brasil, mas alerta para o reducionismo: “Desde os anos 80, há muitas literaturas brasileiras, incluindo uma literatura de entretenimento, herdeira de Machado de Assis, do folhetim, que eu defendo”. Carneiro é autor de uma série de romances policiais que se passam no Rio de Janeiro. “Até há alguns anos, no Brasil, o escritor Ruben Fonseca, autor de romances policiais, era considerado subliteratura. Agora é um clássico”, acrescenta.

Carneiro tem razão. É perigoso tentar reduzir a literatura de um país-continente, onde se produzem muitas novelas urbanas paulistas como as de Ruffato, mas que também produz joias estranhas como A queda do céu, escrito pelo antropólogo francês Bruce Albert sobre o que lhe contou seu amigo de anos, o xamã da tribo indígena yanomami Davi Kopenawa, um texto citado por algum escritor como um volume imprescindível para compreender a realidade brasileira.

No que todos os escritores concordam é com a pouca repercussão internacional da literatura brasileira. O primeiro prêmio Nobel em língua portuguesa (e único até agora) é do escritor português José Saramago. Não houve nenhum brasileiro. As traduções dos romances brasileiros são raras e difíceis de encontrar na Espanha, Estados Unidos ou França. Ou, pelo menos, muito mais difíceis de encontrar do que as de seus contemporâneos hispano-americanos. Todos têm consciência de que vivem em uma ilha linguística enorme, mas uma ilha, afinal. E todos criticam a bastante escassa e contraditória promoção cultural dos sucessivos governos brasileiros. Há quem aponte também, como a escritora Noemi Jaffe, que muitas vezes as editoras estrangeiras buscam um conjunto de estereótipos (futebol, samba, favela...) dos quais muitos escritores justamente tentam escapar.

ANTONIO JIMÉNEZ BARCA
Texto original aqui.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Entrevista com Sérgio Sant'Anna

Unknown
Capa do livro "o conto zero e outras histórias"

Sérgio Sant'Anna, que lança "O conto zero e outras histórias", fala sobre memória, suas vivências no exterior e lembranças que viraram ficção

Com uma obra marcada pela oscilação, na qual as experimentações linguísticas talvez sejam as únicas constantes, o escritor carioca Sérgio Sant’Anna lança seu 19º livro, “O conto zero e outras histórias”. Nascido em 1941, o escritor publicou seu primeiro livro aos 28 anos, estreando como contista. Apesar de ser o gênero que melhor define sua carreira, suas experiências formais já o levaram ao teatro, ao romance e até à poesia.
Ganhou três prêmios Jabuti, um Prêmio Clarice Lispector da Fundação Biblioteca Nacional e um Prêmio Portugal de Literatura Brasileira. Sua obra também já foi adaptada para o cinema, no caso de A senhora Simpson e Um crime delicado, e conta com traduções de seus livros em várias línguas, como o alemão, francês, italiano, espanhol e checo.
Em “O conto zero e outras histórias”, Sérgio Sant’Anna traz vozes de seu passado para compor as dez narrativas que o volume encerra. São histórias que remetem à sua vivência em Londres, onde se mudou aos 12 anos; desilusões amorosas em Belo Horizonte; sua participação, em 72, do Programa Internacional de Escritores de Iowa; suas experiências fortemente marcadas pelo Rio de Janeiro; versos juvenis rasgados e lançados ao mar.
Relembrando o texto Advertência sobre os escrúpulos da fantasia, o escritor italiano Luigi Pirandello disse que a ficção “é metáfora desajeitada e incerta de nós mesmos; a construção, frequentemente complexa, que fazemos de nós mesmos ou que os outros fazem de nós. Portanto, um mecanismo sim, em que cada qual deliberadamente, repito, é a marionete de si mesmo”. Uma afirmação na qual o novo livro de Sérgio esbarra, ao transitar imperceptivelmente entre suas lembranças e construções ficcionais. Um jogo no qual sua própria vida transforma-se em “marionete” para sua imaginação fecunda.
CULT: Por que intitular o livro “Conto zero”, se o “momento zero” era aquele que “você não conservava uma memória e era como se fosse ninguém”, nas suas palavras? 
Sérgio Sant’Anna: Primeiramente eu gosto do título. E “O conto zero” é quando eu vou pegando minhas memórias de infância e chega um momento que elas se apagam, não resta nada. Foi a partir disso que surgiu o livro e, por isso, aquele é o “Conto zero”.
Qual o limite entre realidade e ficção em um livro ficcional tão marcado pelas lembranças?
O livro é marcado pelas lembranças, mas eu me permiti colocar ficção dentro da realidade. No conto “Flores brancas”, por exemplo, aquela vivência minha em Venda Nova com a Letícia, que era minha mulher na época, tem muito de realidade. Em compensação, todo aquele quebra-quebra no ônibus é exagerado.
Em seu primeiro romance, Confissões de Ralfo, a autobiografia aparece como uma ficção, a imaginação de um escritor.  Mais de 40 anos depois você escreve um livro que tem suas recordações pessoais como mote contínuo. Nesse tempo, o que mudou na sua forma de encarar seu passado e seu próprio trabalho literário?
Eu já escrevi muita ficção e aí de repente eu resolvi explorar a memória. Achei que a memória era uma fonte muito boa de material para a ficção. E senti que esse era um momento de usar a realidade. A mudança foi essa decisão de mergulhar na memória.
“O verdadeiro escritor começa por ser um crítico severo de si mesmo”, você escreveu em um artigo de Sérgio Sant’Anna – Um autor em cena. Esse é um dos motivos do uso da recordação pessoal, rememorar-se criticamente?
Eu não fui tão crítico em relação ao passado. Eu fui crítico em relação à forma de colocar isso no conto. Mas o passado é algo que não pode mudar. Alguém já disse “A única coisa que Deus não pode mudar é o passado,” né? Então foi mais uma seleção entre fragmentos do passado que me pareceram interessantes. Lembranças que ainda me moviam bastante na hora de escrever o livro e colocar na ficção.
Você já chegou ao conto que te “redimiria de tantos outros, talvez até te eximisse de escrever”, como diz no “O conto”? É aquele da moça na passarela?
“O conto” é uma grande reflexão sobre o ato de escrever um conto. Sobre essa busca contínua que todos os autores empreendem. Para isso busquei um conto que fosse forte. E essa narrativa da moça foi a escolhida por ser bem dramática. Sua força dramática me levou a colocar como “O conto” que eu estava procurando.
Nesse mesmo conto você estabelece um embate entre a arte romântica, lírica, e a arte crua, da realidade da rua. Qual o papel social da arte, em sua opinião?
A arte precisa sair para refletir as coisas, como a realidade. Então o papel social da arte é colocar em cena os dramas da existência e os dramas sociais que, em um país como o Brasil, estão ao seu lado. Mesmo no conto “Flores brancas” aquela confusão no ônibus é uma realidade social. Eu não busco fazer arte engajada, mas ela surge, ela me toma devido à realidade brasileira que é bem difícil e dramática.
A cidade, seja o Rio de Janeiro, Iowa City, Londres ou Praga, aparece diversas vezes em seus contos. Qual a sua relação com o meio urbano? Você costuma ter ideias literárias durante suas flanações?
A cidade do Rio de Janeiro está muito presente em minha ficção. E Londres também foi uma experiência que me marcou muito. Eu tinha apenas 12 anos e, entre todas as viagens internacionais que eu fiz, essa primeira foi a que mais me ensinou, mais mexeu comigo. Até hoje eu guardo isso dentro de mim e, por isso, surgiu agora no livro. Para Praga eu fui especificamente descrever aquela realidade. Eu ficava flanando em Praga para captar as coisas da cidade. Foi uma coisa muito intencional. Mas o Rio está muito presente pois é o meio ambiente em que vivo, que acaba me tomando na minha ficção. Acaba sendo o cenário de grande parte da minha literatura.
Como foi fazer parte de grandes momentos de efervescência cultural, como no descrito no conto “Vibrações”?
Aquela vivência foi a melhor experiência que tive em minha vida. Aquele tempo que passei em Iowa foi o período mais fértil, mais interessante que eu vivi. Tanto é que no “Vibrações” eu pude falar com várias pessoas, de vários países. No meu entender esse é o melhor conto do livro, pois ele mergulha, retrata uma comunidade internacional. Então são muitos personagens de diversos países. E eu fiz uma enumeração deles, fui falando como eles eram, como agiam, o que escreviam. Lá tive uma convivência tão intensa que não escrevi nada. O programa visava dar tempo para a gente escrever, mas era uma experiência tão interessante que ninguém escrevia nada. Acabava vivendo para escrever depois, como aconteceu comigo. Quando eu voltei, comecei a escrever a principio algumas coisas que estão no “Vibrações”, mas depois parei completamente. Fui retomar 45 anos depois. Mas eu queria preservar aqueles momentos, e acho que consegui.
E por que retomar agora, depois de 45 anos?
Porque eu sentia que, de algum modo, aquilo tinha que entrar na minha ficção. Foi uma experiência única com uma série de pessoas que eu nunca mais vou ver na vida. E cada uma era muito interessante, tanto pela captação de suas particularidades de diferentes nacionalidades, como por traçar um retrato para o leitor de uma época distante.
Além de Clarice Lispector, já citada em “A bruxa”, quais outras escritoras/escritores influenciaram sua carreira literária?
Tem o Machado de Assis também, que cito no conto. Tem muitos escritores que me influenciaram, pois leio de tudo. Mas na hora de escrever procuro ser eu mesmo, sem transparecer minhas influências na escrita.
E atualmente você tem lido o que?
Eu procuro ler algumas coisas contemporâneas para saber o que está se passando. Mas no momento eu estou relendo “Zero” do Ignácio de Loyola Brandão, que é um excelente livro. Também releio pois vou participar de um evento em SP junto com o Ignácio, Bernardo Carvalho e Luiz Ruffato.
Seu livro tem muitos contos marcados pela metalinguagem também, como “Bastidores”…
Minha literatura é marcada pela metalinguagem. Eu sempre usei e até procuro escapar disso um pouco hoje em dia, porque a palavra metalinguagem na verdade está um pouco gasta. Mas quase inconscientemente, quando estou escrevendo, acaba entrando uma reflexão sobre o ato de escrever.­

Por Paulo Henrique Pompermaier,
Para a Revista Cult
Originalmente publicado em: http://revistacult.uol.com.br/home/2016/08/entrevista-com-sergio-santanna/
Imagem retirada de: http://revistacult.uol.com.br/home/2016/08/entrevista-com-sergio-santanna/

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